sábado, 16 de janeiro de 2021

Como a inflação da comida encolheu os salários

 Famílias pobres e trabalhadores informais relatam sua penúria quotidiana. Para acompanhar cesta básica, mínimo teria de subir 22%. Mas Bolsonaro eliminou aumentos e acabou com os R$ 600. Agora, poder de compra é o menor em 15 anos

Por Heloísa Mendonça, no El País Brasil

Com o carrinho de supermercado ainda quase vazio, o professor aposentado David Garbi, de 90 anos, não tira os olhos da lista de compras do mês. Pouco a pouco, vai refazendo com a caneta as contas ao checar os preços da prateleira. “Toda semana os produtos estão mais caros e vou tendo que diminuir a minha lista. Já compro o frango mais barato, mas, se o valor continuar subindo, vou ter que substituí-lo pelo ovo. Parece que a minha aposentadoria só diminui”, diz o aposentado que ganha pouco mais de um salário mínimo, que atualmente é de 1.100 reais. A percepção de Garbi é real. Em 2021, o salário terá, como no ano passado, o menor poder de compra em relação aos produtos da cesta básica desde 2005, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Atualmente, com um salário mínimo é possível comprar cerca de 1,58 cestas básicas, que custam, em média, 696,70 reais. De 2010 a 2019 esse indicador ficou sempre acima de duas cestas, com exceção de 2016, quando diminuiu para 1,93. A cesta básica é composta por 13 itens alimentícios e é base para o cálculo do valor do salário mínimo necessário para a sobrevivência de um trabalhador e de sua família.

A atual queda no poder de consumo pode ser explicada pela combinação de dois fatores: o aumento elevado de preços dos alimentos durante a pandemia do coronavírus, bem acima da inflação oficial, e o fim da política de valorização do salário mínimo, que vigorou entre 2011 e 2019, de reajuste pelo índice de preços e também pela variação do Produto Interno Bruto (PIB). Era uma forma de repassar aos trabalhadores o percentual equivalente ao aumento da riqueza nacional. Hoje, o compromisso do Governo é apenas com a reposição da inflação, sem promessa de aumento real na remuneração dos trabalhadores.

Dados divulgados pelo IBGE nesta terça-feira mostram que a inflação oficial do Brasil, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA),fechou 2020 com alta de4,52%, acima do centro da meta para o ano, que era de 4%, enquanto os preços dos alimentos acumularam aumento de 14,09% no ano. Já o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) utilizado para reajustar o mínimo fechou com alta de 5,45%. O reajuste aplicado ao mínimo pelo Governo foi menor, de 5,26%. Em outras palavras: o reajuste do salário mínimo anunciado para 2021 não cobre a alta da inflação. O mesmo ocorreu no ano passado, quando inicialmente o reajuste para 2020 também não acompanhou a alta dos preços. Entretanto, após a divulgação dos dados pelo IBGE na ocasião, o Governo determinou uma nova correção.

A alta dos preços atingiu todos os setores da alimentação e a desvalorização do real frente ao dólar desde o início da crise sanitária foi um dos motivos que mais pressionou o indicador. “O Brasil é um grande exportador de alimentos e o fato de ter uma moeda norte-americana muito valorizada, que acumulou um avanço de 35%, faz com que o produtor queira exportar, diminuindo a oferta local, o que causa uma forte variação no preço. Já o que importamos, com dólar alto, também fica mais caro”, afirma George Sales, professor da Fipecafi. Além disso, fatores climáticos, em decorrência de longos períodos de estiagem ou de chuvas intensas, também impactaram nos preços dos alimentos ao longo dos meses.

O professor aposentado manuseia sua carteira enquanto faz compras.
O professor aposentado manuseia sua carteira enquanto faz compras. Camila Svenson

Um levantamento divulgado pelo Dieese, nesta semana, mostrou que houve aumento do valor da cesta básica em 17 capitais pesquisadas no país. Um dos grandes vilões da inflação desse ano foi o arroz, que foi pressionado pela alta do dólar, o que aumentou o custo de produção e elevou o volume de grão exportado. A elevada exportação de soja, o carro-chefe da agricultura no país, também impactou no preço do grão e elevou o preço interno de derivados como o óleo de soja. Carne, leite, batata, açúcar e farinha foram outros produtos que pesaram no bolso do consumidor no ano que passou. Entre os alimentos que mais aumentaram os preços, o óleo de soja (103,79%) e o arroz (76,01%) foram dois que dispararam, assim como o leite longa vida (26,93%), as frutas (25,40%), as carnes (17,97%), a batata-inglesa (67,27%) e o tomate (52,76%).

Os efeitos da inflação não são iguais para toda a população e os gastos com alimentação acabam pesando mais para as classes de renda mais baixa, já que grande parte do orçamento é gasta com alimentos. “A inflação é de cada um. E foi muito mais forte para os mais pobres, já que grande parte do salário deles é gasto com comida e bebida. O salário mínimo teria que aumentar mais de 22% para acompanhar a cesta básica”, diz Sales.

Na avaliação de José Silvestre, diretor adjunto do Dieese, é preciso se discutir uma política de valorização do salário mínimo a longo prazo, já que a remuneração está defasada. “Hoje 50 milhões de pessoas têm rendimento referenciado no salário mínimo. Muitos críticos dizem que um aumento do salário impacta nas contas públicas já muito debilitadas, mas é preciso também ver o impacto positivo, de injeção de dinheiro na economia, de arrecadação de tributos e do poder de compra das pessoas”, explica. Considerando o valor da cesta básica de São Paulo, o Dieese estima que o salário mínimo necessário deveria ser equivalente a 5.304,90 reais, o que corresponde a 5,08 vezes o vigente. O cálculo é feito levando-se em consideração uma família de quatro pessoas, com dois adultos e duas crianças.

O professor George Sales avalia que atualmente o Governo de Jair Bolsonaro não tem espaço de manobra, com as contas há mais de seis anos no vermelho, para subir em excesso o salário. “E o próprio setor privado também é prejudicado, em um momento que as empresas tenta sobreviver diante de um choque tão grande como o da pandemia. Hoje, o que o presidente deveria fazer era continuar com o auxílio emergencial para quem precisa por alguns meses, é algo mais focado e não altera o salário de todos”, afirma. Para o professor, o país tem espaço para assumir uma dívida para atender a população mais vulnerável, já que é um momento de exceção.

A diarista Gisleine de Jesus substituiu o arroz diário pelo macarrão após a forte alta do grão.
A diarista Gisleine de Jesus substituiu o arroz diário pelo macarrão após a forte alta do grão. Camila Svenson

Se já está difícil fazer compras para quem ganha um salário mínimo, que é reajustado pela inflação anual, o desafio é ainda maior para os trabalhadores informais. A faxineira Gislaine de Jesus, de 43 anos, tem se assustado com os preços no mercado e já substitui o arroz diário do almoço pela macarrão. Mãe de 3 filhos, ela precisa de muito malabarismo para manter a alimentação da família. O valor da diária de limpeza que cobra 130 reais não aumenta há anos. “No início da pandemia, a ajuda do auxílio emergencial ajudou bastante já que perdi quase todos os clientes. Agora estou conseguindo mais trabalho, mas a compra do mês está pesada”, afirma a diarista enquanto decidia, em um supermercado da região oeste de São Paulo, qual carne levar para casa.

O mercado financeiro projeta que a inflação no próximo ano deve ser um pouco menor. De acordo com o último Boletim Focus, a variação de preços deve chegar ao patamar de 3,34%. Com o avanço da vacinação contra a covid-19 no Brasil e no mundo, a moeda americana deve ficar menos pressionada, diminuindo o preço dos alimentos. Por outro lado, alguns ajustes de preços previstos não ocorreram no setor educacional, de planos de saúde e algumas tarifas públicas – como de transporte e água. Esses itens devem subir. “Há algumas variáveis que podem segurar a inflação de preços em 2021. Ainda enfrentamos nível alto de desemprego e há o encerramento do auxílio emergencial, fatores que reduzem o poder de compra dos brasileiros, de forma geral. Alterações na balança comercial, variações na taxa de câmbio e possíveis movimentos da taxa de juros básica (Selic) também poderão impactar o IPCA ao longo do ano de 2021″, diz Luciana Machado, doutora em Finanças pela FGV.


https://outraspalavras.net/outrasmidias/como-a-inflacao-da-comida-encolheu-os-salarios/

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Na linha de frente da pandemia, enfermeiras sofrem com discriminação e depressão

 SAÚDE

Conselho lança campanha de valorização da profissão e pede apoio para demandas da categoria que já teve 470 mortos pela covid-19 no Brasil

Por André Giusti | ODS 3 • Publicada em 13 de janeiro de 2021 - 08:59 • Atualizada em 13 de janeiro de 2021 - 09:06

Enfermeira em ambulatório para covid-19 em São Paulo: quase 500 profissionais de enfermagem mortos pela doença no Brasil (Foto: Divulgação/Cofen)

Se 2020 foi um ano difícil para todo mundo por causa da pandemia do Covid-19, para algumas pessoas parece ter sido ainda pior. Certamente enfermeiros e os auxiliares de enfermagem estão entre elas. “Nós somos a única categoria que está com os pacientes nas 24 horas do dia. A gente está com o paciente da hora que ele chega a hora que ele vai embora, cuidando com aquilo que a gente estudou, com aquilo que a gente sabe que vai dar resultado. Nós não temos a opção de fazer isolamento social”, resume Viviane Camargo, integrante do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Sem alternativa, muitos enfermeiros não escaparam do vírus. De acordo com números do Conselho, até 5 de janeiro, 470 profissionais haviam morrido de Covid e outros 45.882 contraíram a doença.

O Cofen coleciona histórias de enfermeiros discriminados no comércio e no transporte público, além dos que se afastaram da família para não transmitirem o vírus. Na página do conselho, há a história de uma enfermeira, em Cuiabá, que teve que lutar para reconquistar a guarda provisória do filho, pois o ex-marido entrou na Justiça e conseguiu que o menino não ficasse mais com a mãe para não correr risco de ser contaminado.

Érika de Oliveira Paulino Rosa, de 26 anos, faz parte da estatística dos contaminados e enfrentou esse cenário com apenas dois anos de profissão – ela ainda é residente no Hospital Sírio e Libanês, em São Paulo. Foi um dos primeiros casos da doença no cômputo geral do país. Segundo a enfermeira, quando ficou doente, nem os médicos ainda sabiam ao certo como cuidar dos pacientes (a Organização Mundial de Saúde declarou pandemia no dia 11 de março). Sem a real dimensão do que estava acontecendo no mundo, Érica foi isolada pela direção do hospital em um quarto de hotel durante 15 dias. “Entrei em isolamento quando nem mesmo São Paulo havia se isolado; então eu me senti muito sozinha mesmo”.

Eu tive que internar colegas. Foi um momento muito assustador. Tive a verdadeira noção de quantos colegas estavam infectados, tive noção de tanto de medo que todos estavam e percebi o tanto que as pessoas estavam abaladas psicologicamente. Vi colegas chorando quando o resultado dava positivo

Karine Bastos
Enfermeira em Fortaleza

Assim como milhares de outras vítimas da doença, Érika levou um choque de realidade. “Eu sempre fui uma pessoa muito sociável e extrovertida, que gosta de estar no meio das pessoas; estar em um quarto de hotel sem poder ver o rosto de ninguém, sem poder conversar com ninguém, foi muito difícil (nesse momento, ela faz pausa e chora na gravação do WhatsApp pela qual respondeu as perguntas). Às vezes, eu torcia para que o funcionário do hotel que trazia encomenda para mim ainda estivesse na porta, para que eu pudesse ver alguém fisicamente”, lembra.

Érika: taquicardia, pânico e pensamentos suicidas (Foto: Cofen)
















































Ansiedade e pânico em meio à pandemia

A tecnologia, arma poderosa para amenizar o isolamento imposto pela covid-19, também ajudou Érika. “Recebi assistência remota de um médico e um enfermeiro, que ficavam me monitorando, mas isso não impediu que eu entrasse em depressão. Não conseguia levantar da cama, por dificuldade de respirar ou porque me dava muita taquicardia. Me impedia até de conversar, eu me sentia muito cansada, não conseguia falar muito tempo ao telefone”, ela conta e, nesse ponto, admite que pensou em se matar e acabar com tudo. “Tinha uma varanda no quarto e eu tive que realmente deixá-la fechada porque não podia enxergar isso (o suicídio) como uma possibilidade”.


Apesar de não estar ainda bem fisicamente e emocionalmente, acabei retornando ao trabalho no hospital. Foi quando comecei a ter crise de ansiedade, não conseguia dormir e, de manhã, só em pensar em ir pro hospital, começava a entrar em desespero. Eu estava em uma unidade crítica, uma unidade isolada, área de covid e comecei a ter crises de pânico

Érika Rosa
Enfermeira em São Paulo


Karine Bastos, também enfermeira, tem 38 anos e 10 a mais de enfermagem em relação à Érika, mas com a chegada da covid-19 experimentou a mesma sensação de lutar contra o desconhecido. Ela trabalha em um hospital da rede pública em Fortaleza especializado em traumas e queimaduras, mas de uma hora para outra o local teve que abrir alas para atender pacientes com covid-19. “Tivemos que correr atrás de protocolos”, ela lembra daqueles primeiros dias. De quebra, logo no início, a chefe foi infectada e precisou ser entubada. “Imagina você ter uma chefe que lidera, que orienta e de repente ela fica doente, de uma doença desconhecida”. Outros colegas adoeceram. “Todos nós tínhamos aquele olhar de que a qualquer momento poderia ser um de nós”. E, nesse cenário, Karine também não escapou. Ela ficou doente logo depois de ter ido morar sozinha, pagando aluguel, medida que tomou para proteger os pais. Para não os preocupar, ela não contou que estava doente.

Karine: medo coletivo nos hospitais (Foto: Cofen)


Foram 30 dias de sintomas, com a respiração bastante debilitada, e o lado emocional também. “Sentia muito medo. Houve um momento em que eu tive muita sensação de desmaio e medo de ser entubada. Nesse dia, me vi prostrada no chão pedindo a Deus que me recuperasse. Foi muito marcante, difícil”, conta Karine, que também se emociona ainda hoje. Como paciente, ela sentiu na pele como é importante a confiança de um doente em um profissional de saúde. “Eu deixava claro que se tivesse que ser hospitalizada, eu gostaria de ser cuidada por eles (seus colegas de hospital)”.

Quando voltaram a trabalhar, Karine e Érika depararam com os estragos que a pandemia estava fazendo não apenas na população de um modo geral, mas entre os colegas também. “Eu tive que internar colegas. Foi um momento muito assustador. Tive a verdadeira noção de quantos colegas estavam infectados, tive noção de tanto de medo que todos estavam e percebi o tanto que as pessoas estavam abaladas psicologicamente. Vi colegas chorando quando o resultado dava positivo”, relembra Karine.

Como residente, Érika precisou pagar as horas de plantão em que ficou afastada (a regra é essa, mesmo que o afastamento seja por motivos de saúde). Tudo continuou muito difícil para ela, ou até pior. “Ficar 15 dias fora de um plantão de 12 horas são muitas horas a pagar; precisei voltar e, apesar de não estar ainda bem fisicamente e emocionalmente, acabei retornando ao trabalho no hospital. Foi quando comecei a ter crise de ansiedade, não conseguia dormir e, de manhã, só em pensar em ir pro hospital, eu começava a entrar em desespero. Com muita força, comecei a ir fazer os plantões, mas comecei a sentir pânico. Eu estava em uma unidade crítica, uma unidade isolada, área de covid e comecei a ter crises de pânico”, conta. Sem condição emocional, Érika ficou mais uma semana afastada.


Profissionais de enfermagem atendem pacientes com covid-19 em hospital de Belém: sobrecarga de trabalho ainda maior durante a pandemia (Foto: Tarso Sarraf/AFP)



Sobrecarga recorde de trabalho nos hospitais

O adoecimento de muitos enfermeiros e auxiliares agravou velhos problemas enfrentados pela categoria. A sobrecarga de trabalho é apenas um deles. “Com a pandemia, tudo piorou. Como muitos enfermeiros e auxiliares adoeceram com a covid-19, a sobrecarga de trabalho aumentou”, destaca Viviane Camargo. O caso de Érika ilustra essa situação. Quando adoeceu, as três residentes que moravam com ela tiveram que ficar em isolamento, e não foram trabalhar. No Paraná, no 1º dia útil de 2021, o Conselho Regional pediu à população que se previna contra a covid-19, pois é iminente o risco de faltar enfermeiros para fechar as escalas de serviço. No estado, são quase 18 mil casos da doença entre a categoria.

Em boa parte das situações, a sobrecarga não é apenas em um local de trabalho. “Nossos profissionais precisam muitas vezes trabalhar em vários lugares. E por terem que trabalhar em mais de um emprego, estão expostos a uma alta carga viral. Ele sai de um emprego e vai para outro, sem descansar, e isso já mexe com a imunidade”, alerta Viviane Camargo. É nessas condições, que o profissional enfrenta momentos delicados na jornada de trabalho, como o “Paramentar e desparamentar”, que é vestir e tirar a roupa de trabalho. “Porque a roupa muitas vezes está contaminada e isso precisa ser feito de maneira correta. E isso é feito muitas vezes quando o profissional está cansado, estressado, às vezes esgotado, o que aumenta a margem de erro na hora de tirar a roupa e, consequentemente, a chance contaminação”, explica a representante do Cofen.

A exposição da categoria ao risco maior com a covid-19 reforçou a necessidade de aprovar reivindicações antigas dos enfermeiros e auxiliares, como a jornada de 30 horas semanais e o piso salarial nacional. Por isso, no fim de 2020, o Conselho lançou a campanha Abrace a Enfermagem, para que a sociedade valorize a profissão. A campanha mira especialmente o Congresso Nacional, onde há 20 anos os enfermeiros tentam, por exemplo, que vire lei um projeto que estabelece a jornada de 30 horas de trabalho semanais. Além desse, há outros cinco projetos sobre o assunto, um sobre repouso digno (que há quatro anos espera para ser apreciado pelo Senado) e outros 12 que tratam de um piso salarial único em todo o país. Um deles, de 2015, sequer tem relator designado na Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados, e outros aguardam despacho do presidente da casa.

Atualmente, de acordo com o Cofen, os municípios é que estabelecem quanto os enfermeiros vão ganhar. “O (salário) mais alto é R$ 3,1 mil, na cidade de São Paulo, e o mais baixo, R$ 2 mil em cidades de Pernambuco”, informa Viviane. “A gente gostaria de ter reconhecimento não apenas na forma de aplauso (no início da pandemia, em algumas cidades houve manifestação de aplausos nas janelas para os enfermeiros), mas de salário digno. Porque eles estão dando a sua vida para cuidar da vida de outras pessoas”, enfatiza Viviane. Com o mote da campanha, enfermeiros e auxiliarem esperam pressionar deputados e senadores a transformarem direitos em leis para que a categoria tenha um 2021 um pouco menos difícil. E, se o ano for um pouco melhor para eles, certamente será também para todos nós.


André Giusti

Jornalista com 30 anos de experiência. Já foi repórter, apresentador e chefe de redação no Sistema Globo de Rádio e no Grupo Bandeirantes de Comunicação. É pós-graduado em Gestão da Comunicação das Organizações pelo UniCeub. É carioca e mora em Brasília há 20 anos. Também é escritor e mantém site e blog em www.andregiusti.com.br


https://projetocolabora.com.br/ods3/enfermeiros-enfrentam-discriminacao-e-solidao-na-linha-de-frente-da-pandemia/



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Café é alternativa sustentável contra avanço da pecuária na Amazônia.

Notícias da Floresta

Mongabay/14/01/2021 04h00 

Viveiro de mudas do Café Apuí Agroflorestal Imagem: Idesam/divulgação

Depois de quase desistir dos cafezais, os produtores de café de Apuí, no sul do Amazonas, encontraram no sistema agroflorestal um novo modelo de produção que gera renda e mantém a floresta em pé. Apuí, uma das principais frentes de avanço da pecuária na Amazônia, está entre os dez municípios com a maior taxa de desmatamento na região.


Introduzido em 2012 com apoio do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), o Café Apuí Agroflorestal é o primeiro café do Amazonas cultivado de forma agroecológica. Não só evitou que o pasto da pecuária tomasse conta dos antigos cafezais como dobrou a produtividade na região.


 Quando o Idesam lançou o projeto, a produção dos agricultores da região rendia em média 8 sacas por hectare, muito inferior ao potencial do município. Atualmente, a colheita média dos produtores é de 15 sacas, podendo chegar a 25 por hectare. "Hoje a gente tem 30 famílias, que cultivam 50 hectares de café em sistema de agrofloresta. Mas o potencial é gigantesco", diz Marina Yasbek Reia, líder do Projeto Café Agroflorestal Apuí do Idesam.


"A gente colhia pouco e vendia barato, não sobrava quase nada. Agora, a gente vende com o valor agregado e dá para melhorar um pouco. Dá para comprar insumos para trabalhar na lavoura e comprar as coisas para dentro de casa: uma geladeira, um fogão", conta Ronaldo de Moraes, um dos produtores que integram o projeto. "Eu tô contente. Tem muita gente que trabalha com esse mesmo projeto e tá todo mundo contente. Dá um dinheirinho, né? Dá um pouco de trabalho, mas compensa muito.".

O café cultivado em Apuí é da espécie robusta (Coffea canephora), capaz de se adaptar com mais facilidade a diversas condições de cultivo Imagem: Idesam/Divulgação.


Nas lavouras abandonadas, a oportunidade 

Localizado às margens da Rodovia Transamazônica, próximo à divisa com Rondônia, Apuí foi constituído município em 1987, em meio aos projetos desenvolvimentistas implementados durante o período da ditadura militar no Brasil. Cinco anos antes, havia sido criado na região o Projeto de Assentamento Rio Juma, o maior da América Latina na época. Colonos de diversas áreas do Brasil foram atraídos para a região sob o pretexto de ocupar grandes extensões de terras livres. A primeira corrente migratória veio do Paraná e foi seguida por moradores dos outros estados da região Sul do Brasil.


Muitos colonos eram familiarizados com a lavoura de café e levaram para o novo local a antiga prática do plantio convencional em sistema de monocultura, a pleno sol e com uso de agrotóxicos. Durante cerca de 20 anos, Apuí teve uma boa produção de café. Mas a degradação do solo fez os produtores começarem a abandonar os cafezais por volta de 2012. "Sem o aporte de insumos, sem assistência técnica constante e, principalmente, sem tecnologias tropicais ou mais amigas do clima da Amazônia foi havendo um grande desgaste do solo", conta Marina. "Nossos solos são ácidos, então se você não trabalhar o solo, você não vai tirar café daqui".


Quando os técnicos do Idesam chegaram ao local, viram que existia uma oportunidade. A floresta havia crescido em meio às lavouras abandonadas, fornecendo matéria orgânica ao solo e sombra ao fruto — o cafeeiro é uma planta que se adapta bem à pouca luz. Como resultado, os cafezais abandonados apresentavam uma qualidade superior à daqueles cultivados no método convencional.


Surgiu, assim, a ideia de criar em Apuí um modelo de lavoura cafeeira baseada no sistema agroflorestal (SAF), onde um cultivo agrícola é desenvolvido em consórcio com outras espécies vegetais. Inicialmente, cada produtor recebeu apoio para a recuperação de 1 hectare de cafezais, o que incluiu a distribuição de 10 mil mudas de espécies amazônicas nos dois primeiros anos. Entre elas havia árvores das quais poderia ser extraída a madeira, como jatobás e mognos, e também espécies cujos frutos e sementes poderiam ser coletados e comercializados — entre eles cacau, açaí, castanha-do-brasil, andiroba e copaíba. Dessa forma, os produtores poderiam obter uma renda adicional à da produção do café.

 Processo de torrefação do Café Apuí Agroflorestal Imagem: Idesam/Divulgação.


Projetos desenvolvidos na região também ajudam a fomentar outras cadeias produtivas. É o caso do Cidades Florestais, desenvolvido pelo Idesam com apoio do Fundo Amazônia. Voltado para a produção de óleos essenciais e vegetais, o projeto instalou seis miniusinas de extração de óleos em municípios do interior do Amazonas. Uma delas foi recém-inaugurada em Apuí e poderá apoiar os produtores de café que cultivarem em suas agroflorestas espécies como andiroba, copaíba ou outras plantas aromáticas.


Atualmente o Projeto Café Apuí Agroflorestal conta com a parceria de três ONGs internacionais: a WWF, a WeForest e, recentemente, a reNature. Com o aporte financeiro de 300 mil euros feito em outubro pela reNature, o objetivo é expandir o projeto, agregando até 200 agricultores familiares nos próximos três anos. Atualmente, o produtor que adere à iniciativa recebe acompanhamento técnico constante e subsídios que podem chegar a R$ 15 mil na forma de insumos, mudas, maquinário e serviços. O objetivo do Idesam é tornar o projeto autossuficiente, fazendo com que a venda do café produzido possa cobrir os investimentos — hoje feitos com recursos a fundo perdido pelos parceiros do terceiro setor.


A cadeia produtiva do Café Apuí conta com o apoio de uma associação que congrega os produtores, um viveiro legalizado que fornece mudas nativas, e um torrefador local que torra, mói e embala o café. Para que a bebida chegue até a xícara do consumidor final foi criada a startup Amazônia Agroflorestal, responsável pela captação de investimentos e pela comercialização. O Café Apuí já circula por diversos estados brasileiros, com maior penetração no Amazonas e em São Paulo, e foi exportado pela segunda vez para a empresa holandesa de cápsulas de café Euro Caps.


 O produtor Ronaldo de Moraes na colheita do café Imagem: Idesam/Divulgação.


Cafezal socioambiental

"Queremos crescer, mantendo a conexão com a paisagem. Vamos levar o projeto para mais famílias, mas com a agrofloresta queremos fazer corredores que interliguem os fragmentos [de mata]. Isso é muito importante", conta Marina. Entre os benefícios do plantio em SAF estão a proteção da biodiversidade, o enriquecimento do solo, a redução da erosão, a preservação da qualidade da água e a diminuição dos efeitos das mudanças climáticas.


"A terra ficou mas rica", afirma o produtor Ronaldo. "No [plantio] convencional, a gente batia o veneno para fazer a limpeza. Aí já estava prejudicando a terra que ficava sempre limpa, não tinha aquela cobertura seca, a compostagem natural. Então, as raízes da planta ficavam expostas ao sol. Hoje as raízes ficam cobertas debaixo daquela mata seca que segura mais umidade. O café fica mais bonito e a produção é um pouco maior.".


Investir no desenvolvimento social dos pequenos produtores rurais de Apuí, segundo Marina, do Idesam, é uma forma de resistir ao avanço da pecuária. Apuí figura entre os municípios que mais queimam e desmatam na Amazônia. Segundo dados do Inpe, foram 837 focos de incêndio entre janeiro e julho de 2020, a maior incidência dos últimos 10 anos — em julho, foi o município que mais queimou na Amazônia Legal. Em 2019, esteve entre os dez municípios mais desmatados da região.


"As famílias deveriam ter condições mínimas de permanecer na terra porque permanecendo na terra elas são um fator de conservação", explica Marina. "Se elas saem da terra, o que vem ali fatalmente é a grilagem, o desmatamento para pasto extensivo. E aí vem a tragédia, a tristeza que está acontecendo aqui no sul do Amazonas, no Apuí, como uma nova frente de desmatamento. Os grileiros vão emendando várias áreas, vão juntando lotes pequenos, derrubam e fazem pasto.".

Os grãos do Café Apuí Agroflorestal começaram a ser recentemente exportados para a Europa Imagem: Idesam/Divulgação.



Agrofloresta diminui impacto das mudanças climáticas.

Não é novidade que as mudanças climáticas deverão gerar forte impacto na produção de café. Estudo de 2015 prevê que o aumento na temperatura e a mudança nos padrões das chuvas diminuirão a produtividade do café arábica (Coffea arabica) no mundo, reduzirão a qualidade e aumentarão a pressão de pragas e doenças.


Ao analisar regiões produtoras de café em Minas Gerais e Espírito Santo, estudo publicado este ano por pesquisadores da Wageningen University, na Holanda, e da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, concluiu que as mudanças climáticas podem ocasionar grande perda de área propícia para a produção de café arábica até 2050. A pesquisa mostra, no entanto, que a perda pode ser reduzida com a utilização de sistemas agroflorestais.


"O café arábica produz adequadamente em uma faixa muito estreita de temperatura, numa média anual entre 18 e 23 graus Celsius", diz Lucas de Carvalho Gomes, um dos autores da pesquisa e doutorando da UFV. "No entanto, o plantio de árvores consorciadas com o café cria um microclima que pode diminuir as temperaturas máximas em até 5 graus. Além de modificar o microclima, as árvores também aumentam a provisão de serviços ambientais, como a polinização e o controle natural de pragas, e também ajudam a reciclar nutrientes através da deposição de folhas e galhos no solo.".


Também o café robusta (Coffea canephora), mesma espécie do café Apuí, é sensível às alterações de temperatura. Estudo publicado na revista "Global Change Biology" baseou-se na observação de produtividade de quase 800 fazendas de café no Sudeste Asiático ao longo de 10 anos e sugeriu que a temperatura ideal para o robusta é de 20,5 graus Celsius. Temperatura mais alta significa rendimento menor para a variedade que representa 40% do café mundial.


Sendo as duas variedades de café sensíveis às mudanças climáticas, o plantio em sistemas agroflorestais ganha cada vez mais respeito. Não é a toa que a Nestlé, por meio da Nespresso, vem investindo desde 2014 numa parceria com o coletivo de empreendedores Pur Project para a implementação de plantios agroflorestais com cafeicultores.


No Brasil, maior produtor mundial de café, a grande maioria das plantações segue o padrão da agricultura convencional, com cultivo a pleno sol. "A produção de café em SAFs requer do agricultor um cuidado maior com a quantidade de insolação que as plantas de café recebem em determinadas épocas do ano. Como a insolação em determinado local depende da latitude, cada sistema deve ser desenhado de acordo com as características da propriedade e das espécies florestais que o agricultor deseja usar", comenta Lucas, da UFV. "O desconhecimento por parte de muitos cafeicultores sobre as práticas que levam ao sucesso da produção de café em SAFs também é um empecilho para a expansão dos SAFs também é um empecilho para a expansão dos SAFs no Brasil."


(Por Sibélia Zanon)

Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.... - Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/noticias-da-floresta/2021/01/14/florestas-de-cafe-sao-alternativa-sustentavel-contra-pecuaria-na-amazonia.htm?cmpid=copiaecola


Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.... - Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/noticias-da-floresta/2021/01/14/florestas-de-cafe-sao-alternativa-sustentavel-contra-pecuaria-na-amazonia.htm?cmpid=copiaecola
Notícias da Floresta é uma coluna que traz reportagens sobre sustentabilidade e meio ambiente produzidas pela agência de notícias Mongabay, publicadas semanalmente em Ecoa. Esta reportagem foi originalmente publicada no site da Mongabay Brasil.... - Veja mais em https://www.uol.com.br/ecoa/colunas/noticias-da-floresta/2021/01/14/florestas-de-cafe-sao-alternativa-sustentavel-contra-pecuaria-na-amazonia.htm?cmpid=copiaecola

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Governo Bolsonaro renovou frota presidencial com carros blindados da Ford

 

Presidente e vice-presidente da República têm à disposição pelo menos 14 unidades blindadas do sedã, adquiridas no ano passado, quando modelo saiu de linha no Brasil
Imagem: Divulgação


Alessandro Reis/Do UOL, em São Paulo (SP)/14/01/2021 11h00 

O fechamento das fábricas da Ford no Brasil, anunciado na última segunda-feira, pegou de surpresa um importante cliente da montadora nos últimos tempos. No ano passado, ao menos 14 carros da marca norte-americana foram adquiridos pelo GSI (Gabinete de Segurança Institucional), órgão responsável pela segurança do presidente Jair Bolsonaro, do vice-presidente Hamilton Mourão e de seus familiares, para renovar a frota presidencial.

O modelo escolhido foi o Ford Fusion, todos da versão topo de linha Titanium, equipada com motor 2.0 turbo de 248 cv e trazem blindagem de nível III-A - padrão no mercado nacional, capaz de resistir a disparos de pistolas e até submetralhadoras.

Todos os blindados trazem pintura preta e são idênticos, de forma a dificultar a identificação de quais deles estão transportando as autoridades e seus parentes durante os deslocamentos da comitiva.

Comitiva de Jair Bolsonaro na capital paulista em foto do ano passado; Fusion é o 3º carro do comboio

Imagem: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO

Comitiva de Jair Bolsonaro na capital paulista em foto do ano passado; Fusion é o 3º carro do comboio Imagem: ALOISIO MAURICIO/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO... - Veja mais em https://www.uol.com.br/carros/noticias/redacao/2021/01/14/governo-bolsonaro-renovou-frota-presidencial-com-carros-blindados-da-ford.htm?utm_source=chrome&utm_medium=webalert&utm_campaign=politica&cmpid=copiaecola
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As informações referentes à frota de blindados que atende o presidente da República constam de edital aberto em agosto de 2020 pelo GSI para a contratação de seguro total dos veículos - incluindo a respectiva blindagem, com valor estimado de R$ 65 mil para cada carro, considerando os preços da época. 

Também informa que cada sedã traz R$ 3,5 mil em equipamentos de sinalização visual e sonora.

O edital traz valor de referência de R$ 72.312,52 para a contratação da cobertura dos 14 automóveis blindados e esclarece que estes "atendem o Presidente e Vice-Presidente da República, bem como seus respectivos familiares", bem como pontua que os sedãs eram zero-quilômetro na época, pois foram então "recém-adquiridos". 

O documento também pontua que "os veículos a serem cobertos pelo seguro total estão sujeitos a acidentes que podem causar danos ao patrimônio da União e a terceiros e que a contratação do seguro proporcionará maior segurança no caso de envolvimento em sinistros".

UOL Carros procurou a assessoria de comunicação do GSI, questionando o total de veículos que atualmente atendem a Presidência, bem como os respectivos modelos e quanto custaram. O órgão respondeu que "não se manifesta sobre detalhes operacionais envolvendo a segurança do Presidente da República, Vice-Presidente da República e familiares". 

As informações solicitadas também não foram localizadas no site do Gabinete de Segurança Institucional.

Presidente critica Ford 

Um dia após a Ford confirmar o fim da produção de veículos no Brasil, Jair Bolsonaro afirmou que a empresa não "falou a verdade" sobre a decisão. Segundo o presidente, a montadora queria subsídios para manter suas fábricas no País. 

Bolsonaro disse, ainda, que a Ford recebeu R$ 20 bilhões de incentivos fiscais nos últimos anos.

"Mas o que a Ford quer? Faltou a Ford dizer a verdade, né? Querem subsídios. Vocês querem que eu continue dando R$ 20 bilhões para eles como fizemos nos últimos anos? Dinheiro de vocês, impostos de vocês, para fabricar carro aqui? Não", disse o mandatário para apoiadores. 

Na ocasião, Bolsonaro também citou a concorrência chinesa. 

"Queriam renovar subsídio para fazer carro para vender. Agora, tem a concorrência também. Chinesa, entre outras. Saiu porque, em um ambiente de negócio, quando você não tem lucro, você fecha", cravou.

O adeus do Fusion

Fusion foi lançado no Brasil em 2006, importado do México, e se despediu 14 anos depois

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Antes de a Ford anunciar nesta semana o fechamento das suas fábricas no Brasil, decretando a aposentadoria de Ka, Ka Sedan e EcoSport assim que terminarem os respectivos estoques, a montadora já tinha encerrado a oferta do Fusion em maio do ano passado. A decisão de aposentar o sedã executivo aqui e em outros mercados vai ao encontro da estratégia de focar em SUVs e utilitários, mais rentáveis para a companhia. 

O Fusion foi lançado no Brasil em 2006, em substituição ao Mondeo, e até ser descontinuado aqui passou por duas gerações e algumas reestilizações.

Sempre importado do México, o sedã de porte grande para os padrões brasileiros chegou a fazer relativo sucesso, chegando a acumular mais de 4.000 emplacamentos anuais em concorrência direta com o Hyundai Azera.

Espaçoso e bem equipado, era vendido aqui com seis airbags de série e, na mais recente geração, contava até com airbags integrados aos cintos de segurança traseiros.

Até por conta da rivalidade com o Azera, ganhou ainda na primeira geração a opção de motor V6 com tração integral, substituído na seguinte pelo 2.0 turbo que equipa os carros que hoje atendem Jair Bolsonaro. 

Foi também na primeira geração que o sedã passou ser comercializado com versão híbrida, tornando-se um dos primeiros automóveis do País a contar com essa tecnologia - antecipando a onda de eletrificação na qual a Ford e praticamente todas as grandes montadoras têm investido.

Sua retirada do mercado brasileiro já era esperada, após a matriz da companhia nos EUA iniciar o movimento para descontinuar seus hatches e sedãs. 

Aconteceu três meses antes de o Fusion deixar de ser fabricado no México, a fim de liberar a linha de produção para o Bronco Sport - que será exportado para o Brasil.





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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

NOTA PÚBLICA - Desmatamento, invasão de terras e ameaças: fim de ano violento para trabalhadores rurais e agentes da CPT no Maranhão

COMISSÃO PASTORAL DA TERRA

Acirramento de conflitos no Maranhão e ações de intimidação contra comunidades tradicionais e agentes da CPT-MA estão em curso já neste início de ano. Em decorrência do agravamento do contexto fundiário e social no Estado, sobretudo nas comunidades rurais do território Campestre, zona rural de Timbiras, e em defesa das pessoas que vivenciam e acompanham o conflito, a CPT-MA emite nota em que a cobra proteção dessas pessoas; investigação das violações de direitos; e continuidade dos processos de titulação de terras das comunidades tradicionais.

Leia nota na íntegra:

NOTA PÚBLICA - Desmatamento, invasão de terras e ameaças: fim de ano violento para trabalhadores rurais e agentes da CPT no Maranhão

A Comissão Pastoral da Terra no Maranhão (CPT-MA), logo neste início do ano, denuncia o aumento da violência no campo no Maranhão e alerta o governo e a sociedade maranhense para a necessidade de uma ação imediata e continuada a fim de evitar derramamento de sangue em 2021.

Entre outubro e dezembro de 2020, trabalhadores rurais do território Campestre, na zona rural de Timbiras, sofreram ameaças de expulsão, assédio moral, pressão para aceitarem acordos espúrios e tiveram parte de suas terras invadidas e devastadas e pelos empresários Cícero Armando Sampaio e Thales Mota Araruna (Juazeiro do Norte – CE).

Segundo relatos registrados em boletim de ocorrência, no dia 19 de outubro de 2020, sob ordens de Cícero Armando Sampaio, homens invadiram a comunidade Santa Vitória, no território Campestre e, com auxílio de maquinário pesado, destruíram diversos trechos de mata abrindo variantes e alterando os limites ocupados pela comunidade.

Nos dias 2 e 4 de dezembro do mesmo ano, diversos homens invadiram a comunidade Marmorana, também no território Campestre, onde também devastaram parte da mata para abrir variantes das estradas locais. Segundo moradores da comunidade, os invasores os ameaçaram verbalmente afirmando que todos ali seriam expulsos de suas terras.

O conflito foi acirrado após a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Timbiras (Semma) autorizar o invasor a retirar a vegetação local.

Centenas de famílias são ameaçadas por invasor no Maranhão

No dia 9 de dezembro, o delegado da polícia civil e vereador de Codó reeleito pelo PDT, Rômulo de Sousa Vasconcelos, intimou 14 camponeses e camponesas da comunidade Santa Vitória, Mamorana e Alegria para uma audiência na delegacia de polícia do município de Timbiras, com o objetivo de realizar um acordo a mando de Cícero Sampaio e Thales Araruna (filiado ao PDT), os pretensos proprietários da referida área.

Com medo, os moradores convocados não foram à audiência. O delegado Rômulo Sousa Vasconcelos, então, dirigiu-se a Santa Vitoria, a 20 km da sede do município, onde intimidou e ameaçou as famílias para comparecerem no dia 10 de dezembro à delegacia de polícia para a realização da audiência. Questionado por uma senhora que se sentiu ameaçada por sua postura autoritária, o delegado se irritou e deu ordem de prisão à mulher. A ação truculenta do delegado na comunidade deixou três mulheres em estado de pânico, e uma delas precisou ser levada ao hospital para ser medicada. Esta não é a primeira vez que o delegado atua de forma autoritária. Suas práticas violentas contra camponeses e a favor de latifundiários já foram denunciadas há alguns anos à corregedoria da polícia civil.

Há 21 anos o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) instaurou procedimento administrativo com objetivo de desapropriar as terras em favor de mais de 20 comunidades do território Campestre, cerca de 400 famílias.

‘A luta pela terra em Gostoso’: Empresa ameaça comunidade tradicional no Maranhão

O processo se arrasta até hoje, e a omissão de órgãos públicos federais, como o Incra, e a ação temerária de órgãos locais, como a Semma de Timbiras, favorecem crimes e violações de direitos de povos tradicionais e legítimos donos da terra, como os que vivem no território Campestre há mais de 120 anos.

A CPT Maranhão e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão (Fetaema), que acompanham o caso de Campestre, acionaram, no Maranhão, a Secretaria de Segurança Pública (SSP), a Secretaria de Direitos Humanos e Participação Popular (Sedihpop), a Comissão Estadual de Prevenção à Violência no Campo e na Cidade (Coecv) e o próprio governador Flávio Dino para denunciar as violências registradas.

Nos dias 10 e 11 de dezembro de 2020, uma operação conjunta entre a Polícia Civil de Timbiras, a Superintendência de Polícia Civil do Interior (SPCI) e apoio do Centro Tático Aéreo (CTA) autuou em flagrante Cícero Armando Sampaio e Thales Mota Arauna por crime ambiental. Eles estavam realizando desmatamento com maquinário pesado em área da comunidade Marmorana, no território Campestre, usando uma licença ambiental sem assinatura do secretário de Meio Ambiente (SEMA). Após pagamento de fiança, Cícero e Thales foram liberados pela polícia. O maquinário foi apreendido.

Nos primeiros dias de janeiro de 2020, moradores de Campestre notificaram a CPT de que já tiveram notícias de que os invasores estão se preparando para retornar ao território e seguir com as destruições.

Jagunços da empresa Maratá

Desde 2019, a CPT Maranhão também vem acompanhando e denunciando as violências cometidas pela empresa Maratá contra moradores da comunidade Santa Maria, na zona rural de Timbiras.

Em agosto daquele ano, jagunços ligados à empresa atacaram 200 famílias, ateando fogo em suas moradias, casa de farinha e produção estocada. Os jagunços ameaçaram de morte os agricultores, mataram um cachorro da comunidade com tiro de arma de grosso calibre e trocaram tiros com a polícia, chamada para atender a ocorrência. Um trabalhador morreu três dias depois por complicações cardíacas em decorrência do pânico causado pelos jagunços.

A Maratá alega ser dona das terras, ocupadas pelos moradores de Santa Maria e seus antepassados há pelo menos 100 anos.

Fogo em fazenda de eucalipto e soja ameaça comunidade quilombola no Maranhão

Em outubro de 2019, dois meses após o ataque, os jagunços foram presos. Com eles foram apreendidas armas e munições de uso restrito. Eles foram soltos dias depois. Moradores de Santa Maria, que estão retornando para a comunidade e reconstruindo suas moradias, informaram que funcionários da Maratá continuam passando por dentro povoado para monitorar o que estão fazendo.

Estratégias de intimidação de agentes da CPT

Com o acompanhamento da CPT Maranhão a esses dois casos em especial, os agentes pastorais passaram a receber, desde meados de 2020, diferentes “recados” que servem como estratégias de intimidação usadas por jagunços e grileiros das cidades de Timbiras e Codó.

Os recados são enviados no sentido de deixar explícito ao agente da CPT que quem enviou a mensagem sabe seus dados pessoais – incluindo endereço – e conhece suas rotinas e atuação nos conflitos.

Além disso, os recados, enviados via mensagem de celular ou expressos abertamente durante depoimentos em delegacias e em conflitos nas comunidades, também têm o objetivo de apontar para outros jagunços e grileiros quem são as pessoas que “atrapalham” ações de desmatamentos e invasões de terra, e que por isso precisam ser eliminadas.

Entre outubro e dezembro de 2020, alguns recados ficaram mais incisivos, com a presença de carro, com vidros escuros, estacionado por noites seguidas em frente à casa de agente da CPT, e um motoqueiro que fez fotos desta casa à noite e partiu em disparada.

As estratégias de intimidação estão sendo registradas e comunicadas à coordenação geral da CPT e às autoridades públicas municipais e estaduais para que sejam tomadas as providências necessárias.

A publicação Conflitos no Campo Brasil 2019, publicado em abril de 2020 pela CPT, aponta que o Brasil teve 1.254 conflitos por terra registrados, com afetação para 144.742 famílias, mais de 578 mil pessoas. O Maranhão é o estado mais conflituoso, com 174 ocorrências desse gênero, seguido por Pará, com 150, e Bahia, com 139. Desde 2009 o estado lidera o ranking de ocorrências de conflitos no campo no Brasil.

Os dados recentes não deixam dúvidas: o Maranhão é, sem dúvida, um dos lugares mais violentos e perigosos do mundo para quem defende a terra e o direito dos povos originários e tradicionais de viverem nela.

Por isso, a CPT Maranhão inicia o ano de 2021 denunciando a agudização dos conflitos no campo no estado, com o aumento da violência contra povos e comunidades tradicionais bem como contra os parceiros de luta, entre eles, agentes da CPT.

Solicitamos às autoridades estatais e federais que, para evitarem derramamento de sangue neste ano e nos próximos, que aportem, com urgência, recursos e braços em três frentes: 1) proteção efetiva de povos tradicionais e defensores de direitos humanos e da natureza; 2) investigação e punição de pessoas e empresas que violam direitos humanos e do meio ambiente; 3) início, retomada e conclusão de processos de titulação de terras de povos e comunidades tradicionais.

Quarta-feira, 13 de janeiro de 2020.

CPT Maranhão


https://www.cptnacional.org.br/publicacoes/noticias/conflitos-no-campo/5485-nota-publica-desmatamento-invasao-de-terras-e-ameacas-fim-de-ano-violento-para-trabalhadores-rurais-e-agentes-da-cpt-no-maranhao