quinta-feira, 21 de junho de 2018

Morre José Marques de Melo, um dos maiores pensadores da comunicação no Brasil

Ex-diretor da Escola de Comunicações e Artes da USP foi o primeiro doutor em jornalismo titulado por uma universidade brasileira

José Marques de Melo integrou o corpo docente fundador da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP – Foto: Lincon Zarbietti

Morreu na tarde desta quarta-feira, dia 20 de junho, aos 75 anos, José Marques de Melo, um dos principais pesquisadores na área de comunicação no Brasil. Melo é Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, da qual foi diretor, além de integrar o corpo docente fundador da unidade.
O sepultamento será realizado dia 21 junho, às 11 horas, no Cemitério do Morumbi, em São Paulo (Rua Deputado Laércio Corte, 468, Morumbi).
Nascido em Palmeira dos Índios, em Alagoas, no dia 15 de junho de 1943, obteve os títulos de bacharel em Jornalismo (Universidade Católica de Pernambuco, 1964), bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais (Universidade Federal de Pernambuco, 1965) e pós-graduação em Ciências da Informação Coletiva (Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina, Equador, 1966) no período anterior à sua ida a São Paulo.
Iniciou a carreira acadêmica em 1966 como assistente do professor Luiz Beltrão, no Instituto de Ciências da Informação da Universidade Católica de Pernambuco (Recife), transferindo-se logo em seguida para a capital paulista. Nessa ocasião, foi convidado por Octávio da Costa Eduardo para trabalhar como diretor de pesquisas do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos (Inese), onde começou a ganhar reputação como pesquisador comunicacional.
Fundou, em 1967, o Centro de Pesquisas da Comunicação Social, mantido pela Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, então vinculada à Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Neste mesmo ano, foi contratado na USP, integrando o corpo docente fundador da então Escola de Comunicações Culturais, hoje Escola de Comunicações e Artes.
Em 1973, defendeu o doutorado em Ciências da Comunicação na ECA e se tornou o primeiro doutor em jornalismo no Brasil. Depois, recebeu bolsa de pós-doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para realizar estudos avançados de comunicação nos Estados Unidos. Na ECA também obteve o título de livre-docente e foi professor titular.
Foi o responsável pela implantação do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA, que chefiou por vários anos, atividade somente interrompida nos anos de 1974 a 1979, durante o regime militar, quando esteve impedido de exercer a docência em universidades públicas brasileiras. Anistiado em 1979, reassumiu sua cátedra na USP, exercendo-a em regime de dedicação exclusiva ao ensino e à pesquisa.
Durante a gestão do reitor José Goldemberg, em 1989, foi escolhido para exercer o cargo de diretor da ECA, mandato cumprido até 1993, quando decidiu se aposentar voluntariamente da instituição.
Em 1994, a convite do então reitor da Unicamp, Carlos Vogt, ajudou a fundar o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo. Ainda dirigiu a Faculdade de Ciências da Comunicação da Umesp – Universidade Metodista de São Paulo, no triênio 1997/2000, quando realizou ampla reforma pedagógica, sintonizada com as novas diretrizes curriculares do Ministério da Educação.
Trabalhou em jornais como Gazeta de Alagoas, Jornal de Alagoas, Jornal do Commercio, Última Hora, A Gazeta, O São PauloO Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Correio Braziliense e Zero Hora.
Melo é um dos grandes nomes da pesquisa do jornalismo na América Latina. Foram 173 livros publicados, organizados ou editados por ele, como Teoria do Jornalismo: Identidades BrasileirasMídia e Cultura Popular – História, taxionomia e metodologia da FolkcomunicaçãoTelevisão BrasileiraOs Caminhos Cruzados da Comunicação e Gêneros Jornalísticos no Brasil. Muitos deles se tornaram clássicos e referências obrigatórias no estudo da comunicação no País.
Em 2014, o projeto Memórias da ECA entrevistou o professor, que contou como foi a implantação da Escola de Comunicações e Artes USP e sua trajetória profissional. Em 2015, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), entidade que idealizou e da qual foi um dos fundadores, produziu um especial sobre a vida de José Marques de Melo.
Com informações do Portal Intercom e da Universidade Metodista de São Paulo

A direção da Escola de Comunicações e Artes publicou uma nota de falecimento:
É com pesar que a Diretoria da Escola de Comunicações e Artes da USP informa o falecimento na tarde de hoje, dia 20 de junho, do Professor Emérito José Marques de Melo. Até o fechamento desta nota não houve confirmação, por parte da família, de informações sobre seu velório e sepultamento.
José Marques de Melo foi o primeiro doutor em jornalismo titulado por uma universidade brasileira e participou ativamente de momentos marcantes da história da ECA: integrou o corpo docente fundador da Escola de Comunicações Culturais, foi criador e primeiro Chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) e Diretor. Durante sua rica trajetória intelectual, contribuiu com a formação de inúmeros pesquisadores e publicou dezenas de livros que se tornaram referências para as áreas de jornalismo e comunicação.
O professor José Marques de Melo será lembrado por todos com gratidão e carinho pela sua dedicação e contribuição fundamentais para a Escola de Comunicações e Artes da USP.
Diretoria da Escola de Comunicações e Artes
 https://jornal.usp.br/universidade/comunidade-usp/morre-jose-marques-de-melo-um-dos-maiores-pensadores-da-comunicacao-no-brasil/

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Comprovado o vazamento de rejeitos de mineradora estrangeira em Barcarena (PA)

Publicado em sex, 23/02/2018 - 10:27
FOTO: Divulgação MP-Pará

No ultimo dia 17, após fortes chuvas, moradores de várias comunidades de Barcarena (PA) relataram que houve vazamento de rejeitos de bauxita da mineradora norueguesa Norsk Hydro.
Apesar da negativa da empresa e da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS) – órgão licenciador - o Instituto Evandro Chagas (IEC) confirmou as denúncias dos moradores de que houve o vazamento.
A princípio, as famílias relataram que o vazamento foi através de uma tubulação clandestina, no entanto, o IEC confirmou que houve também o transbordamento do reservatório. Segundo o estudo apresentando nessa quinta-feira (22) na Universidade Federal do Pará (UFPA), na comunidade Itupanema o índice de alumínio encontrado na água está 25 vezes maior do que o permitido para consumo. Para o IEC, se a mineradora norueguesa não paralisar a exploração de bauxita, o reservatório poderá romper.
As famílias atingidas já vêm denunciando essa situação há vários anos, mas não são escutadas pelas autoridades, sobretudo pelo órgão que licencia o empreendimento. “Tudo indica que estamos diante de um crime semelhante ao cometido pela Samarco (Vale-BHP Billiton) em Mariana (MG), em que a empresa já tinha consciência de que poderia acontecer o pior, mas não tomou as providências necessárias”, afirma Edizângela Barros, da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Pará. “Além disso, o poder público é conivente com essa situação”.
A Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Pará foi ao local hoje (23) realizar uma diligência. A Câmara dos Deputados também criou uma comissão para investigar o caso.
Arte: MAB
Pará deixa de receber R$7,5 bilhões da conta de energia da Norsk Hydro
No Pará, a mineradora transnacional Norsk Hydro é dona de quatro empresas: Mineração Paragominas S.A, que explora bauxita no município de Paragominas; a refinaria de alumina da Alunorte; a fábrica de Alumínio da Albras e a Companhia de Alumina do Pará, as três no município de Barcarena.
Em 2017, a receita bruta da mineradora foi de R$ 45 Bilhões. Mesmo ganhando muito dinheiro com a extração da bauxita e beneficiamento do alumínio, o governo do estado do Pará isentou a Norsk Hydro de pagar o ICMS da conta de energia. No total, a empresa deixará de pagar aos cofres do estado cerca de R$ 500 milhões anuais até 2030. Com essa medida, os paraenses perderão R$7,5 bilhões.
Por outro lado, a população paraense é obrigada a pagar 25% de ICMS nas contas de energia elétrica, e no estado do Pará há cerca de 300 mil famílias que poderiam entrar no programa da tarifa social, para pagar menos nas tarifas de energia, no entanto, o governo do estado não prioriza a identificação dessas famílias como priorizou o a isenção da mineradora transnacional.
FOTO: Divulgação

http://mabnacional.org.br/noticia/comprovado-vazamento-rejeitos-mineradora-estrangeira-em-barcarena-pa#.WpAY-_OE0qQ.twitter?t=1&cn=ZmxleGlibGVfcmVjcw%3D%3D&refsrc=email&iid=5808ddff14e74e1a9c9fb58ce90972b5&uid=480331390&nid=244+272699400



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Hidrelétricas infartam rios da Amazônia

Barragens já impedem a migração de peixes e a dispersão de sedimentos, ameaçando a biodiversidade e o bem-estar de mais de 30 milhões de pessoas
Espécies migratórias, como o curimatá, são prejudicadas pelas barragens (Foto: Elizabeth Anderson/Science Advances)


A maior bacia hidrográfica do mundo está prestes a sofrer uma severa fragmentação se parte das 160 barragens em planejamento forem de fato construídas, afirmou uma equipe de pesquisadores dos EUA e de vários países da América do Sul em artigo publicado pela revista científica Science Advances. As hidrelétricas construídas na bacia do rio Amazonas para atender às crescentes demandas por eletricidade estão levando à extinção espécies de peixes e colocando em risco 30 milhões de habitantes que subsistem de seus rios.

O mapeamento revelou que 142 hidrelétricas de vários tamanhos já operam na região o dobro do relatado em canais oficiais, e que elas estão causando mais impacto à natureza do que se imaginava. Os protocolos de impacto ambiental e de licenciamento apresentados pelas empresas ignoram os efeitos cumulativos de construir múltiplas barragens em uma rede fluvial ou uma bacia hidrográfica. “Se a situação continuar sem controle ou gestão integrada, os efeitos serão devastadores ao ecossistema nos próximos anos”, diz a ecologista Elizabeth Anderson, da Universidade Internacional da Flórida, em Miami, principal autora do estudo.

O impacto ambiental das hidrelétricas atinge diretamente os peixes migratórios, entre eles a dourada, um grande bagre migratório (celebrizado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva na “crise do bagre”, em 2006), que caminha para a extinção no Peru e na Bolívia. O complexo hidrelétrico do rio Madeira impede a travessia de cardumes da foz do Amazonas até o rio Mamoré, na Bolívia.

Para dar uma ideia, pelo menos 3.500 espécies de peixe habitam os rios da Bacia Amazônica. Apenas nas cabeceiras andinas da Amazônia foram contadas 671 espécies.

As variações nas correntes dos rios e na química das águas também ameaçam os mamíferos de água doce, como os botos e as ariranhas. Durante a estação chuvosa eles costumavam avançar pela região inundada e se alimentar de frutos, mas são impedidos pelo bloqueio de rotas de migração e mudanças dos níveis da água, revela a ecóloga Sandra Bibiana Correa, da Universidade Estadual do Mississippi, nos EUA.

Os rios de origem andina também deveriam exportar quantidades maciças de sedimentos, matéria orgânica e nutrientes para as terras baixas, além de contribuir com cerca de metade do fluxo anual da água doce da Amazônia. Mas esse sistema não está funcionando como o esperado, já que as barragens impedem a dispersão natural do material particulado.

Os rios amazônicos, sobretudo, servem diretamente a mais de 30 milhões de pessoas, que se alimentam de seus peixes, cultivam grãos em suas margens e sobrevivem da venda de produtos florestais. “A construção das barragens está modificando toda a dinâmica de abastecimento; desmatando áreas de floresta, alagando ou esvaziando locais estratégicos para a população”, disse Anderson.

Entre os rios afetados pela falta de conectividade estão o Napo, que nasce no Equador, atravessa o Peru e deságua na margem esquerda do Solimões; o Beni, que nasce na cordilheira dos Andes e deságua no rio Madeira, na fronteira com o Brasil; e o Mamoré, um curso de água da bacia do Amazonas que nasce da confluência do rio Chapare com o rio Mamorecillo, na Bolívia.

A análise enfatiza a necessidade urgente de maior cooperação internacional para o gerenciamento de água transfronteiriça, algo que atualmente não está no planejamento hidrelétrico da Amazônia. O estudo ainda aponta que nenhum país da Amazônia ratificou a Convenção das Nações Unidas sobre os Cursos de Águas, que se aplica ao uso de cursos de água internacionais para fins diferentes de navegação e trabalha para promover medidas de proteção, preservação e gestão de águas internacionais.

Esforços financeiros globais para proteger a riqueza biológica e cultural da Amazônia andina, segundo os pesquisadores, concentraram-se, em sua maior parte, na criação e manutenção de uma rede de áreas protegidas e territórios indígenas – e que todo esse esforço, segundo eles, pode ser frustrado pelas alterações de rios e paisagens modificadas pela construção de barragens e hidrelétricas.

O estudo ainda sugere que os recentes escândalos de corrupção econômica do Brasil têm levado empresas brasileiras a investir na construção de barragens em países andinos e que o Peru estaria cada vez mais perto de viabilizar a Hidrovia Amazônica, que envolve a dragagem e a canalização de longos trechos de rios da Amazônia, com potencial de gerar grandes perdas para o ecossistema.

Fonte: Observatório do Clima

http://amazonia.org.br/2018/02/hidreletricas-infartam-rios-da-amazonia/?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Not%EDcias+da+Amaz%F4nia+-+2+de+fevereiro+de+2018

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Os sete ataques do golpe à liberdade de expressão




Desmonte da TV pública. Mais privilégios para redes de TV e políticos associados. Ameaças à internet. Até privatização do satélite. Inventário dos retrocessos é espantoso

Por Marina Pita*, no Intervozes

O aprofundamento da crise no Brasil, a partir da dificuldade de sustentação do governo ilegítimo de Michel Temer, somado às orientações políticas que vieram do Planalto, impactaram seriamente o direito à comunicação e o exercício da liberdade de expressão no País em 2017.

Práticas como o uso político das concessões de radiodifusão e a privatização das telecomunicações se intensificaram, ao mesmo tempo em que políticas públicas de comunicação foram desmontadas e abriu-se espaço para a intervenção estatal na gestão da Internet no Brasil.

Confira abaixo sete episódios em que políticos – seja no Congresso ou no governo federal – golpearam ainda mais a democracia nas comunicações do Brasil.

1. Desmonte da EBC e da comunicação pública

Depois da medida provisória que mudou a lei da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), extinguiu seu Conselho Curador e o mandato para presidente da empresa, a pressão governamental sobre a linha editorial dos veículos da EBC ganhou intensidade, com ataques crescentes à sua autonomia editorial.

Em 2017, a cobertura dos veículos públicos passou a ser fortemente orientada pelo oficialismo, ao passo que as críticas ao governo foram censuradas. Além disso, equipes foram alteradas para retirar profissionais que não aceitavam se submeter às imposições e novos programas foram cancelados.

Os repasses de recursos para as emissoras que compõem a Rede Nacional de TVs Públicas deixaram de acontecer, debilitando a diversidade na produção e veiculação de conteúdos.

No final de novembro, o Conselho de Administração (Consad) aprovou a retirada do conceito de “comunicação pública” do plano estratégico da EBC, documento que orienta objetivos e ações da empresa. Em sua versão anterior, a meta era “ser referência em Comunicação Pública”. Agora, é “ser uma empresa referência em comunicação”. Recentemente, as atividades da TV Brasil (pública) e da NBR (canal estatal do governo federal) foram integradas.

2. Crescentes violações à liberdade de expressão

No último ano, vozes divergentes foram sistematicamente silenciadas no Brasil. A campanha Calar Jamais!, coordenada pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, registrou 70 casos emblemáticos de cerceamento à liberdade de expressão em 2017, analisados no relatório anual da campanha.

O conjunto das violações mapeadas comprova que práticas que já ocorriam no Brasil – como violência contra comunicadores e repressão às rádios comunitárias –, encontraram um ambiente propício para se multiplicar após a chegada de Michel Temer ao poder.

E que a censura nas redes, nas escolas e nas ruas cresceu fortemente com o aumento da repressão aos protestos contra as medidas adotadas pelo governo e o Congresso.

O ano de 2017 foi marcado assim por casos como o do jovem Edvaldo Alves, morto por um tiro de bala de borracha enquanto protestava no interior de Pernambuco; ou do estudante universitário Mateus Ferreira da Silva, que teve traumatismo craniano após ser atingido com um golpe de cacetete na cabeça durante manifestação em Goiânia.

O relatório também traz o registro da invasão da Escola Florestan Fernandes, do MST, pela polícia; da condução coercitiva do blogueiro Eduardo Guimarães; e do flerte de Temer com a suspensão dos direitos constitucionais, por meio do decreto presidencial de 24 de maio passado, que declarou Estado de Defesa e autorizou a ação das Forças Armadas para garantir a “ordem” no país.

3. Intervenção governamental no Comitê Gestor da Internet

No início de agosto de 2017, representantes do terceiro setor, da academia e até mesmo do mercado foram surpreendidos com a divulgação, pelo governo federal, de uma consulta pública para mudar a composição e as atribuições do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

O assunto não havia sido sequer mencionado dentro do Comitê, contrariando flagrantemente seu caráter multissetorial, pelo qual é reconhecido internacionalmente.

A posição autocrática assumida pelo governo e conduzida pela gestão do ministro GilbertoKassab rompeu inclusive com o compromisso assumido em âmbito internacional pelo Brasil de garantir a participação multissetorial em todos os processos, etapas e esferas de deliberação acerca da internet.

Após forte mobilização social dentro e fora do Brasil (leia nota da Coalizão Direitos na Rede), o governo foi obrigado a recuar e transferir a condução da etapa final da consulta pública para o próprio CGI.

4. Marco regulatório da radiodifusão ainda pior

A dupla Temer e Kassab também conseguiu piorar o que já era ruim em termos de democracia nas comunicações. Em março de 2017, também fruto de uma medida provisória, foi publicada uma lei altera as regras para a exploração do serviço de radiodifusão no país.

Medidas como anistia aos prazos perdidos para renovação das outorgas e liberação de aprovação prévia do Executivo para a alteração no quadro societário das concessionárias favoreceram significativamente o empresariado.

Agora não é nenhum exagero afirmar que os donos de rádio e televisão no Brasil estão ainda mais livres para fazer o que bem entender com este bem que, vale lembrar, é público.

5. Favorecimento a políticos donos da mídia

Em 2017, o uso das outorgas de radiodifusão como moeda de troca política voltou à baila. Em meio à crise, Michel Temer acelerou a tramitação de outorgas apresentadas por parlamentares da base governista em busca de apoio. A denúncia foi feita pelo jornal El País.

Com o controle de rádios e TVs, políticos se tornam atores decisivos na cena política e garantem sua perpetuação nos cargos. São exemplos desta prática, que viola flagrantemente a Constituição brasileira, os atuais ministros Ricardo Barros, Helder Barbalho e o líder do governo no Senado, Romero Jucá.

6. Empresários nas vagas da sociedade civil no Conselho de Comunicação Social do Congresso

A lei 8389/1991, que instituiu o Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão consultivo do Congresso Nacional para leis que tratam deste tema, determina que o órgão tenha uma composição tripartite, formada por representantes de empresas de rádio, televisão e imprensa escrita, de categorias profissionais da comunicação e da sociedade civil.

Historicamente, entretanto, as vagas da sociedade civil são ocupadas a bel prazer dos congressistas.

Em 2017, tomaram posse, nas vagas de titularidade e suplência destinadas à sociedade civil, quatro empresários das comunicações: Fábio Andrade, diretor da America Móvel, indicado pelo próprio presidente do Senado, Eunício Oliveira; Ranieri Bertolli, presidente da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão; Luiz Carlos Gryzinski, diretor da Associação Brasileira de TV por Assinatura UHF (ABTVU); e Patrícia Blanco, representante do instituto empresarial Palavra Aberta, indicada pelo Conar, o Conselho de Autorregulamentação Publicitária, formado apenas por agências privadas.

Atualmente, o CCS é o único espaço institucional de caráter nacional com assentos para a sociedade civil.

7. Privatização do satélite geoestacionário

Depois de gastar mais de R$ 2 bilhões com a construção de um satélite que deveria garantir o acesso à internet em áreas desconectadas do país, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações decidiu que privatizaria o equipamento às vésperas de seu lançamento.

Isso só não aconteceu porque nenhuma empresas compareceu ao leilão realizado, depois de três adiamentos, em novembro passado. O fracasso da tentativa de privatização mostrou, mais uma vez, que a lógica do mercado de telecomunicações privilegia o atendimento apenas a áreas com alto poder de atração comercial, não havendo interesse na oferta em outros territórios.

Por isso, uma política pública que de fato universalize o acesso à internet em todos os cantos do país depende de recursos e da gestão pública. No final do ano, o ministro Kassab anunciou que a Telebrás vai operar o satélite, que está no espaço desde maio.

Marina Pita é jornalista e integra o Conselho Diretor do Intervozes

https://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/os-sete-ataques-do-golpe-a-liberdade-de-expressao/

domingo, 26 de novembro de 2017

Morre o frei da Libertação do sul e sudeste do Pará

Henri des Roziers morreu neste domingo e serviu de referência para o atual advogado da CPT no sul do Pará, José Batista Afonso

Frei Henri enfrentou os poderosos das florestas no sul do Pará por longas décadas e ajudou a transformar a realidade de pequenos agricultores

Frei Henri des Roziers faleceu, na tarde deste domingo (26), na mesma Paris em que nasceu há 87 anos. Advogado de formação e dominicano por vocação, tornou-se um dos maiores defensores dos direitos dos trabalhadores rurais e camponeses na região de fronteira agrícola da Amazônia brasileira. Ele foi umas das referências para o atual advogado da CPT (Comissão Pastoral da Terra) na região, José Batista Afonso.

Esse homem magro, de fala mansa e andar compassado tornou-se referência no acolhimento de vítimas do combate ao trabalho escravo e na denúncia desse crime à Justiça e ao mundo. Mas também tornou-se um dos principais atores na luta pela reforma agrária, contra a impunidade dos ricos detentores de terras e pelo fim das arbitrariedades policiais.


A morte de Henri, decorrente do agravamento de seu estado de saúde (ele havia sofrido acidentes vasculares cerebrais e tinha uma miopatia congênita, que paralisava seus músculos), apesar de trazer um vazio a todos seus amigos – grupo ao qual, orgulhosamente, me incluo – não deixa de ser uma vitória. Pois nenhuma das várias ameaças que recebeu e nenhuma das tentativas de assassinato que sofreu conseguiram impedir seu trabalho.


Ou seja, o fato de Henri ter deixado a vida por conta própria é uma humilhante derrota para o rosário de grileiros, madeireiros ilegais, escravagistas e latifundiários inescrupulosos do Pará e do Tocantins que planejaram sua morte. Mas, ao mesmo tempo, não pode ser visto como uma vitória de nossa frágil democracia. Porque ele sobreviveu apesar da incompetência do Estado brasileiro em garantir a vida aos defensores de direitos humanos em uma região regada periodicamente com sangue.


Henri, descendente de uma nobre família francesa que escolheu lutar ao lado do povo, incomodou muita gente. E fez com que a Amazônia fosse um lugar menos injusto para se viver.


Formado em direito e com um PhD em Direito Comparado, pela Universidade de Cambridge, Henri foi ordenado sacerdote em 1963 – cinco anos antes de participar dos protestos de estudantes e trabalhadores em Maio de 1968 nas ruas da capital francesa. Vem ao Brasil em dezembro de 1978, quatro anos após frei Tito ter cometido suicídio durante seu exílio, na França, como consequência da tortura que sofreu do delegado Sérgio Paranhos Fleury.

''Cheguei ao Brasil no fim de 1978. Em 1979, vim para cá acompanhando um agente pastoral ao Bico do Papagaio [norte do atual Estado do Tocantins]. É terra sem lei. Os posseiros totalmente oprimidos, pequenos, não tinham uma organização mínima. Queriam minha expulsão do país.''


Durante anos, Henri foi a única assessoria jurídica dos trabalhadores nessa região. A violência na região tem uma origem histórica. Durante a ditadura militar, o governo federal concedeu uma série de subsídios financeiros a empresas para que se instalassem na Amazônia, garantindo também infraestrutura e segurança aos seus empreendimentos. Isso foi feito sem a ordenação da divisão das terras ou instalação de serviços essenciais que garantissem os mesmos direitos de ocupação para pequenos colonos e posseiros. Com isso, a Amazônia tornou-se uma região livre para grandes empreendimentos, grandes fazendas e seus interesses, em que o poder econômico faz a lei. Entre 1971 a 2006, foram registrados no Estado do Pará, 814 assassinatos no campo, dos quais a grande maioria permaneceu sem apuração.


Frei Henri des Roziers chegou a andar com proteção policial 24 horas por dia. No dia 18 de outubro de 2007, chegaram informações à Polícia Militar no município de Xinguara, Sul do Pará, que pistoleiros haviam contratados para assassinar Henri por R$ 50 mil.

Em 1990, Henri planejou mudar-se para a América Central a fim de desenvolver por lá o mesmo trabalho que fazia na Amazônia. Mas acabou se estabelecendo no município de Rio Maria (PA) a fim de ajudar o padre Ricardo Rezende após o assassinato, a tiros, de Expedido Ribeiro de Souza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria.


''Henri é uma das figuras singulares, únicas, que têm a vida marcada pelo compromisso com os mais pobres. Teve uma atuação marcante pela proteção dos migrantes, na França nos anos 60. E durante 35 anos, lutou pelos camponeses e os trabalhadores em uma região que matava e escravizava'', lembra Ricardo Rezende.


Em uma de nossas conversas, ele me contou sobre essa época: ''Acompanhamos, por exemplo, toda a apuração, o processo e o julgamento dos assassinos dos sindicalistas da região de Rio Maria nos anos 80 e 90. Os fazendeiros resolveram acabar com o sindicato dos trabalhadores de Rio Maria e assassinaram uma série de presidentes. Nessa época, era um dos sindicatos mais atuantes da região. Foi assassinado o primeiro presidente em 1985. Depois, foi a vez de um dos líderes em 90 e seus dois filhos, que eram do sindicato, o terceiro saiu ferido. Foi assassinado, em 90, um diretor. E, em 91, o sucessor dele, além de baleados outros. Passei da região do Bico-do-Papagaio para aqui [Xinguara] a fim de ajudar na apuração desses crimes. Tem dado um trabalho enorme até hoje, mas conseguimos que todos os pistoleiros fossem a júri. Vários foram condenados. Todos fugiram.''


A Teologia da Libertação, linha da igreja católica que acredita que a alma só será livre se o corpo também for, tem sido uma pedra no sapato de quem lucra com a exploração do seu semelhante na periferia do mundo. Na prática, esses religiosos católicos realizam a fé que muitos não querem ver retirada do livro sagrado do cristianismo. Para traduzir, nada como uma citação atribuída ao já falecido Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: “Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista”.


Henri recebeu a condecoração de cavalheiro da Legião de Honra, do governo francês, em 1994, um dos tantos prêmios que ele recebeu. Após um dos AVCs que sofreu, foi transferido, a contragosto, para um hospital particular em São Paulo. Lembro do seu incômodo por estar lá. Achava que estava sendo mimado. Queria estar no mesmo hospital usado pela população com a qual convivia diariamente. Não por populismo ou a fim de provar algo para ninguém, ele não precisava. Mas porque sentia que aquele não era seu lugar.


Em 2013, profundamente debilitado pela doença, Henri voltou para sua terra natal e permaneceu no convento de Saint-Jacques até sua morte.


Frei Xavier Plassat, francês como Henri, coordena a campanha nacional da CPT para o combate ao trabalho escravo e está há décadas no Brasil. Foi ele quem me trouxe a notícia de sua morte. Desabafou: ''Henri tinha como mestre Bartolomeu de las Casas, dominicano e defensor dos indígenas escravizados, que viveu no século 16. Tinha dele a paixão irredutível, incansável, eficaz. Paixão e compaixão. Uma pessoa que sabia chorar de indignação e denunciar os potentados, sem medo. Dele, é o Deus do canto do Magnificat: 'Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos'. Henri foi quem me conduziu aqui no Brasil. Grato para sempre, Henri, meu irmão''.


Ao receber o Prêmio Internacional de Direitos Humanos Ludovic Trarieux, em 2005, mesmo reconhecimento dado a Nelson Mandela, ele afirmou: ''Neste mundo globalizado em que vivemos a loucura do consumo, neste mundo da injustiça e da desigualdade, da destruição da criação e, consequentemente, da vida, é essencial retomarmos consciência dos valores fundamentais da existência, da diversidade, da solidariedade, da relação com a natureza, de uma outra relação entre Norte e Sul, para podermos embasar a esperança de que um outro mundo é possível e nos motivarmos a construí-lo''.


Uma pessoa assim não morre. Eu que não tenho a mesma fé de Henri, acredito que ele sim atingiu a imortalidade. Viverá para sempre como um dos capítulos mais bonitos da história brasileira. (blog do Sakamoto – publicado originalmente no www.uol.com.br)


https://www.correiodecarajas.com.br/post/morre-o-frei-da-libertacao-do-sul-e-sudeste-do-para

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Redações à beira de um ataque de nervos



Em artigo para o Portal Comunique-se, o “Mestre do Jornalismo” Heródoto Barbeiro coloca em pauta a situação enfrentada por redações


As redações estão à beira de um ataque de nervos. As informações para serem transformadas em notícias chegam por vários canais. Pela reportagem, apuração, os mais variados sites e plataformas digitais, releases físicos ou virtuais, e também pelo Facebook, Google ou WhatsApp. Este não para de divulgar informações de origem pública, de outros veículos, de grupos com participantes pré selecionados ou de mensagens individuais. Pessoas e telefones que nunca vimos, de repente, aparecem no celular e trazem uma informação que aparentemente pode ser transformada em notícia.

Será verdade? Era mais fácil avaliar antes da teia de comunicação informacional se estruturar. A identificação da fonte era o primeiro passo para atestar se o que chegava era falso ou verdadeiro. Se estava exposto em um veículo de credibilidade, meio caminho andado. Ainda assim é preciso averiguar. E se o colega errou? Com o advento das mídias sociais há uma verdadeira avalanche de informações que brotam durante todo o dia e uma boa parte delas, falsas. Umas dolosamente falsas. O primeiro alvo é e reputação de pessoas, de preferência conhecidas; marcas, de preferência globais; instituições, de preferência de entidades que tem uma determinada posição sobre assuntos polêmicos.

“As redações estão à beira de um ataque de nervos. As informações para serem transformadas em notícias chegam por vários canais”


Khadafi morreu. Vários veículos consultados confirmam a informação e que já se transformou em notícia. Trump mandou tirar o busto de Martin Luther King do salão oval da Casa Branca. Com a fama que o histriônico americano tem, só pode ser verdade. Não era. A fonte, um repórter da revista Time errou. E a montanha de coisas que chega via WhatsApp? O político fez uma ligação que foi grampeada e nela conta como conseguiu milhões para suas despesas pessoais e o que sobrou aplicou na campanha. A precariedade, a diminuição de jornalistas na redação, a pressa de divulgar antes da concorrência não justificam divulgar, ou reproduzir a informação sem boa dose de apuração. É preciso checar nome, endereço, evidências em contrário, identificar a fonte se for possível.

A origem pode ser de um adversário ou de um bot à serviço sabe-se lá de quem e qual causa. Por isso o risco é maior consideradas as transformações pelo que passam os veículos e os jornalistas. Não é fácil estar atento para investigar evidências e pistas que vão contra o palpite, ou preferência pessoal do jornalista. Este precisa identificar as bolhas de informação especialmente as que lhe são simpáticas e comungam com a sua visão de mundo, aquela que gosta de ouvir e falar para fortalecer sua convicção.


Redações contra fake news


Será verdade? É possível conter a histeria de divulgar algo que parece que vai causar grande impacto no púbico alvo, promover o veículo ou plataforma que carregou e notícia e dar notoriedade ao jornalista ? Nunca o ditado dito por minha vó foi tão útil: quem tem pressa come cru. Contemplar os vários lados e pontos de vista ajuda, é preciso separar, como dizia o velho Mark Twain, o joio do trigo. O que de fato aconteceu e o que é ou fantasia, ou notícia falsa? Fake news já fazem parte de dicionário da língua inglesa. Mais do que nunca o jornalista tem que usar o ponto de interrogação como instrumento de trabalho diário.

Diante da realidade da confluência de mídias uma notícia não espera mais 24 horas, ou uma semana para chegar em uma banca de jornal ou na porta da casa de um assinante. Ela pulula na tela do celular com sinal sonoro, e viaja de metrô, ônibus e em alguns casos, de avião. O gesto de ler, ouvir, ver é imediato. Mesmo sorrateiramente durante uma palestra ou uma aula na escola. O impacto também é imediato e daí sobrevém o compartilhamento nas redes pessoais. Não se pode esquecer que com a tecnologia à disposição dos proprietários de smartphones qualquer pessoa pode se tornar um repórter ou editor. Se o seu público vai aceitar ou não o que divulga depende do seu chapéu de reconhecida credibilidade.

https://portal.comunique-se.com.br/redacoes-beira-de-um-ataque-de-nervos/?info

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O sabor do saber – artigo de Tom Coelho

OPINIÃO

(Imagem: Reprodução/Pixabay)


A educação perdeu o sabor. E é curioso constatar isso quando desvendamos pela etimologia que as palavras sabor e saber têm a mesma origem no verbo latino sapare.

Apagão de mão de obra, vagas de estágio que não conseguem ser preenchidas, desqualificação profissional. Tudo isso é reflexo da crise de nosso modelo educacional, indicando um abismo entre o que as escolas entregam e o que as empresas demandam. A academia está distante e desalinhada do mundo corporativo.

É indiscutível que devemos promover uma “cruzada pela educação”. Vender a ideia da educação para o Brasil, colocando-a como prioridade, ao lado da saúde e da ciência e tecnologia, nas discussões orçamentárias e de planejamento estratégico nacional. Criar o conceito de responsabilidade educacional e infligir com a perda do mandato prefeitos que desviam recursos das salas de aulas para a construção de estradas e outras finalidades que lhes conferem capital político mais imediato. E investir no docente, sua formação e sua remuneração, pois a chave da boa escola é o professor.

Todavia, mesmo diante de toda esta breve argumentação, minha conclusão mais precisa é que o problema da educação está na escola que ficou chata, perdeu a graça, não acompanhou a evolução do mundo moderno. O aluno não vê aula, quando vê não presta atenção, não se aplica nos deveres de casa e vai mal nas provas. Lembra-me aquela máxima marxista: uns fingem que ensinam, outros fingem que aprendem. Esqueceram-se apenas de avisar ao mercado desta combinação.

São estes alunos que serão reprovados num simples processo seletivo. E serão eles que, gerenciando companhias ou decidindo empreender um negócio próprio, engordarão as já elevadas estatísticas de insucessos empresariais.

A educação perdeu o sabor. E é curioso constatar isso quando desvendamos pela etimologia que as palavras sabor e saber têm a mesma origem no verbo latino sapare. O conhecimento é para ser provado, degustado. É como se a cabeça (o estudar) estivesse em plena consonância com o coração (o gostar).
Cozinhando palavras

O que me faz avançar madrugada adentro postado diante de uma tela, digitando em um teclado, com música ao fundo e pensamento ao longe, produzindo artigos como este? A resposta está no desejo de escrever um texto que traga prazer ao leitor tal qual o banquete preparado por um cozinheiro a seus convidados.

Todo escritor tem duas fontes de inspiração: uma musa e outros escritores. Minha musa é o próprio mundo, uma obra de arte, um livro dos mais belos para quem o sabe ler. Já meus “padrinhos” são tantos que não posso colocar-me a relacioná-los. Acabariam as laudas, faltaria paciência ao leitor e eu incorreria invariavelmente no pecado capital da negligência, deixando de citar nomes por traição da memória.

Rubem Alves é um destes nomes. Vem dele a inspiração desta metáfora que envolve escritores e cozinheiros. Minha cozinha fica numa sala. Minha bancada é uma mesa. Meu fogão é um computador. Minhas panelas são minha cabeça. Meus ingredientes são as palavras. Vou selecionando-as, misturando-as e provando de seu resultado. Saboreio com os olhos e cuido para que temperos em excesso não comprometam outros sabores.

Há dias em que estou tomado pela culinária italiana. Então produzo textos encorpados que alimentam a consciência e que pedem uma taça de vinho tinto, cor de sangue, de contestação. Corpo e sangue. São os momentos de questionamento da ordem, este prazer da razão, banhado pela desordem, esta delícia da emoção.

Em outros dias, sinto-me inspirado pela cozinha francesa. É quando me torno econômico no uso dos ingredientes, mas extravagante no uso dos temperos. É quando surgem os textos mais leves na forma e mais profundos em seu conteúdo, convidando todos a uma demorada reflexão.

Assim sucedem as semanas, sucedem os artigos. A cada semana um prato novo. Alguns nascem naturalmente, demandam pouco tempo de cozimento. Outros, por sua vez, ficam dias no forno. Consomem quantidade incrível de palavras. Letras que vêm e que vão. Chegam mesmo a queimar os dedos, mas finalizá-los tem seu propósito ao imaginar a satisfação de quem os lerá estampada no brilho dos olhos, no sorriso de canto de boca.

Assim entrego-me a este ofício, marchando pitagoricamente com o pé direito para as minhas obrigações e com o pé esquerdo para os meus prazeres, tendo a certeza de que o escrito com esforço será lido com apreciação.

Paul Valéry dizia que um homem feliz é aquele que, ao despertar, reencontra-se com prazer, reconhecendo-se como aquele que gosta de ser. Saber o que se é e o que se deseja ser: quanto sabor há nisso!




Tom Coelho é educador, palestrante em gestão de pessoas e negócios, escritor com artigos publicados em 17 países e autor de oito livros.

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