sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Senado aprova projeto que garante recursos para extensão e assistência técnica ao agricultor familiar

 

Fica garantido um piso de 2% dos recursos dos principais programas do governo para financiar esses serviços

POLÍCIA QUE MATA POR VINGANÇA

Entrevista “Alguém mata um policial, a polícia mata mais. É um ciclo”, diz pesquisadora

Mortes no Complexo do Salgueiro reforçam a pesquisa de Terine Husek Coelho de que quando morre um policial em serviço a chance de civis morrerem no mesmo dia aumenta em 1150%


30 de novembro de 2021 | 17:52 | Ciro Barros

https://apublica.org/wp-content/uploads/2021/11/capa-operacoes-em-resposta-a-morte-de-pms-leva-a-mortes-mas-nada-alem-disso-diz-pesquisadora-2000x1200.jpg


No último dia 20, o Rio de Janeiro amanheceu com mais uma operação sangrenta da Polícia Militar. Após uma incursão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM fluminense, ao menos nove pessoas foram mortas no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) em uma ação que durou por volta de 35 horas e onde foram disparados, segundo noticiou o programa Fantástico, da TV Globo, 1500 tiros.

A operação teve início duas horas depois da morte do sargento da PM Leonardo Rumbelsperger da Silva, de 40 anos, que foi morto enquanto fazia um patrulhamento de rotina na região. Moradores do Salgueiro encontraram os corpos em um manguezal próximo ao local e, segundo relatos, os corpos traziam marcas de tortura.

O episódio soma-se a uma longa lista de operações policiais que ocorrem no Rio de Janeiro logo após a morte de policiais em serviço e que, frequentemente, são muito letais. Alguns exemplos são as mortes ocorridas no Jacarezinho, em maio deste ano, a segunda maior chacina da história do Rio segundo a ONG Fogo Cruzado, quando 25 pessoas foram mortas após uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Durante uma incursão para cumprimento de diligências policiais, o policial civil André Frias foi morto e na sequência 24 pessoas foram mortas. Outro episódio notável ocorreu em junho de 2013, quando as manifestações de rua tomaram o país e o Rio de Janeiro, e a Polícia Militar realizou uma operação no Complexo da Maré em resposta à morte de um sargento do Bope. Dez pessoas morreram na ocasião. Em 2007, o Rio testemunhou a chamada “Chacina do Pan”, quando 19 pessoas foram mortas no Complexo do Alemão após uma operação que mobilizou 1200 policiais em decorrência da morte de dois policiais dias antes do início dos Jogos Pan-Americanos. Nos anos 1990, 21 pessoas foram mortas na Chacina de Vigário Geral em resposta à morte de quatro policiais.

Terine Husek Coelho, pesquisadora do Instituto Igarapé, mestre e doutoranda em Ciências Sociais pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) apontou em sua pesquisa de doutorado a correlação clara entre a vitimização de policiais em serviço e o aumento da letalidade policial na mesma região após a realização de operações policiais. Dados de sua pesquisa mostram que quando um policial morre em serviço, a chance de um civil ser morto no mesmo dia aumenta em 1150%. No dia seguinte, aumenta em 350%. Na semana seguinte, em 125%. São os efeitos das chamadas “operações-vingança”, termo com que foram batizadas essas operações feitas para supostamente dar uma resposta às mortes de policiais em serviço. Terine, porém, rejeita o termo. “Eu até uso muito pouco esse termo. Porque dá a impressão de que quando você fala esse termo parece que são policiais que estão se vingando ali por conta própria, mas eu tento jogar a responsabilidade para cima”, diz, em entrevista à Agência Pública.

Para ela, o comando das instituições policiais também endossa esse tipo de operação de resposta que, segundo ela, é inócua. “Esse efeito fica se alimentando. A vitimização policial é um jeito da polícia matar mais, mas também morrer”, afirma.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Você aponta em sua pesquisa uma correlação clara entre a vitimização e a letalidade policial. O que explica a existência das chamadas “operações vingança”?

Eu tinha trabalhado na Secretaria de Segurança Pública aqui do Rio de Janeiro por um tempo antes de entrar para o mestrado e eu já vinha de São Paulo um pouco com essa ideia. Em São Paulo, conversei com um coronel que me disse assim: “Quando um policial morre, eu perco um pouco o controle da minha tropa”. Isso me chamou a atenção. Eu falei: ‘bom, tem um fenômeno aí que quando um policial morre, os policiais tendem a matar mais”. Então a gente foi fazendo uma análise de série temporal e ficou observando o comportamento da letalidade policial em diversas áreas e a gente coloca um fenômeno diferente [no estudo], que é a vitimização policial. Ou seja, queríamos saber: quando um policial morre, a letalidade altera de alguma forma? O que acontece é: quando a gente olha pro estado inteiro, ela não muda. Ou seja, quando ocorre a morte de um policial, isso não vai fazer com que todos os policiais matem mais. Se essa morte for na folga, só vai ter efeito na letalidade policial se for um policial de muito vulto, um capitão, algum policial que tenha algum apelo. Geralmente, essas mortes na folga são roubos seguidos de morte, ou quando o policial está num bico. Em geral, apesar dos policiais morrerem mais na folga, isso não tem efeito na letalidade. Mas esse policial que morre em serviço, fardado, isso geralmente impacta. O dado me diz isso. Então, a partir da leitura dos dados, eu fui atrás dos policiais. Queria entender tanto o que acontece para o próprio policial, quanto o que acontece na unidade. Entrevistei tanto policiais que estavam em uma ocorrência e viram um colega ser morto como conversei com os comandantes dessas unidades.

 

      "Existe uma correlação clara entre a vitimização e a letalidade policial"
    "E a política de segurança deixa a gente com muito mais medo no final"
    "Policiais numa megaoperação não vai dar certo. Isso vai gerar mortes, mas nada além disso"

No último dia 20, o Rio de Janeiro amanheceu com mais uma operação sangrenta da Polícia Militar. Após uma incursão do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM fluminense, ao menos nove pessoas foram mortas no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ) em uma ação que durou por volta de 35 horas e onde foram disparados, segundo noticiou o programa Fantástico, da TV Globo, 1500 tiros.

A operação teve início duas horas depois da morte do sargento da PM Leonardo Rumbelsperger da Silva, de 40 anos, que foi morto enquanto fazia um patrulhamento de rotina na região. Moradores do Salgueiro encontraram os corpos em um manguezal próximo ao local e, segundo relatos, os corpos traziam marcas de tortura.

O episódio soma-se a uma longa lista de operações policiais que ocorrem no Rio de Janeiro logo após a morte de policiais em serviço e que, frequentemente, são muito letais. Alguns exemplos são as mortes ocorridas no Jacarezinho, em maio deste ano, a segunda maior chacina da história do Rio segundo a ONG Fogo Cruzado, quando 25 pessoas foram mortas após uma operação da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Durante uma incursão para cumprimento de diligências policiais, o policial civil André Frias foi morto e na sequência 24 pessoas foram mortas. Outro episódio notável ocorreu em junho de 2013, quando as manifestações de rua tomaram o país e o Rio de Janeiro, e a Polícia Militar realizou uma operação no Complexo da Maré em resposta à morte de um sargento do Bope. Dez pessoas morreram na ocasião. Em 2007, o Rio testemunhou a chamada “Chacina do Pan”, quando 19 pessoas foram mortas no Complexo do Alemão após uma operação que mobilizou 1200 policiais em decorrência da morte de dois policiais dias antes do início dos Jogos Pan-Americanos. Nos anos 1990, 21 pessoas foram mortas na Chacina de Vigário Geral em resposta à morte de quatro policiais.

Terine Husek Coelho, pesquisadora do Instituto Igarapé, mestre e doutoranda em Ciências Sociais pela UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) apontou em sua pesquisa de doutorado a correlação clara entre a vitimização de policiais em serviço e o aumento da letalidade policial na mesma região após a realização de operações policiais. Dados de sua pesquisa mostram que quando um policial morre em serviço, a chance de um civil ser morto no mesmo dia aumenta em 1150%. No dia seguinte, aumenta em 350%. Na semana seguinte, em 125%. São os efeitos das chamadas “operações-vingança”, termo com que foram batizadas essas operações feitas para supostamente dar uma resposta às mortes de policiais em serviço. Terine, porém, rejeita o termo. “Eu até uso muito pouco esse termo. Porque dá a impressão de que quando você fala esse termo parece que são policiais que estão se vingando ali por conta própria, mas eu tento jogar a responsabilidade para cima”, diz, em entrevista à Agência Pública.

Para ela, o comando das instituições policiais também endossa esse tipo de operação de resposta que, segundo ela, é inócua. “Esse efeito fica se alimentando. A vitimização policial é um jeito da polícia matar mais, mas também morrer”, afirma.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Você aponta em sua pesquisa uma correlação clara entre a vitimização e a letalidade policial. O que explica a existência das chamadas “operações vingança”?

Eu tinha trabalhado na Secretaria de Segurança Pública aqui do Rio de Janeiro por um tempo antes de entrar para o mestrado e eu já vinha de São Paulo um pouco com essa ideia. Em São Paulo, conversei com um coronel que me disse assim: “Quando um policial morre, eu perco um pouco o controle da minha tropa”. Isso me chamou a atenção. Eu falei: ‘bom, tem um fenômeno aí que quando um policial morre, os policiais tendem a matar mais”. Então a gente foi fazendo uma análise de série temporal e ficou observando o comportamento da letalidade policial em diversas áreas e a gente coloca um fenômeno diferente [no estudo], que é a vitimização policial. Ou seja, queríamos saber: quando um policial morre, a letalidade altera de alguma forma? O que acontece é: quando a gente olha pro estado inteiro, ela não muda. Ou seja, quando ocorre a morte de um policial, isso não vai fazer com que todos os policiais matem mais. Se essa morte for na folga, só vai ter efeito na letalidade policial se for um policial de muito vulto, um capitão, algum policial que tenha algum apelo. Geralmente, essas mortes na folga são roubos seguidos de morte, ou quando o policial está num bico. Em geral, apesar dos policiais morrerem mais na folga, isso não tem efeito na letalidade. Mas esse policial que morre em serviço, fardado, isso geralmente impacta. O dado me diz isso. Então, a partir da leitura dos dados, eu fui atrás dos policiais. Queria entender tanto o que acontece para o próprio policial, quanto o que acontece na unidade. Entrevistei tanto policiais que estavam em uma ocorrência e viram um colega ser morto como conversei com os comandantes dessas unidades.


E o que surgiram dessas conversas com os policiais?

A dissertação tem o nome de “Medindo Forças”, e eles vão me contar em geral que se acontecer uma morte na área deles, eles têm que mostrar que são fortes, que a polícia está no comando e que têm condições de reagir a essa morte. Eles se posicionam dessa maneira. É um pouco dessa resposta institucional. Eles falam assim: “Se eu não der uma resposta, a minha tropa vai achar que eu não respondo. E elas esperam que eu faça alguma coisa. Os familiares também esperam que eu faça alguma coisa”. E esse fazer alguma coisa geralmente se traduz, aqui no Rio de Janeiro, especificamente, com mais força, numa operação policial. E numa megaoperação. Não é uma operação com dois homens, é uma megaoperação para mostrar que a polícia tem condições de reagir e que não vai se atirar na polícia em vão.

O que acontece com um policial quando ele perde um colega? Aquilo ataca, tem uma dor, você tá perdendo um colega de trabalho do seu lado. Ou seja, quando ele morre, gera uma revolta na tropa. Somos todos humanos e, humanizando um pouco o policial, isso vai acontecer.

Se eu não tenho uma estratégia para controlar a tropa, que resposta eu dou para essa tropa? Ela precisa de uma megaoperação? Você tem que acalmar a tropa de alguma forma e eles colocam eles com todo um arsenal ali e fazem essas megaoperações com uma tropa muito descontrolada. O efeito disso são ações muito letais como a que a gente teve na Maré, em 2013, quando um sargento do Bope morreu no período das manifestações, ou a que a gente teve na Chacina do Pan, em 2007.

 

Após operação policial no Salgueiro e mais de 1.500 tiros disparados, nove corpos foram retirados de um mangue 

É natural a reação emocional dos policiais que perderam colegas. Mas o comando da corporação parece entrar nessa mesma postura de dar o aval a essas megaoperações de resposta nesse momento. Qual deveria ser a postura do comando nessa situação? E como você vê essa questão do envolvimento do comando?

É bem essa a questão que eu tentei colocar na minha dissertação. Até uso muito pouco esse termo “operação vingança”. Eu tento tirar um pouco isso. Porque dá a impressão de que quando você fala esse termo parece que são policiais que estão se vingando ali por conta própria, mas eu tento jogar a responsabilidade para cima. Você enquanto a cabeça pensante, você sabe o que vai acontecer e você tem que tentar controlar a situação. Você sabe que o policial vai ficar revoltado. E o importante é saber que estratégia você tem para que essa revolta não se transforme em mais mortes. E que não seja multiplicação de dor. Porque isso não tem efeito. Isso tem efeito simbólico no policial de dizer que deu uma resposta. Mas essa não deveria ser a postura da polícia. A gente tem uma lei, a gente tem uma legislação a seguir, a gente tem caminhos que podem ser muito mais efetivos para a proteção policial do que a gente dar uma resposta desse tipo. Em uma das falas em uma UPP que eu fui fazer entrevista, a situação foi contrária. O Bope foi e matou um dos meninos dentro da comunidade e aí o tráfico foi na UPP matar um policial na frente. E era perto do carnaval e o comando falou: “Eu não posso fazer uma operação agora porque vai matar muita gente, tem muita gente na rua”. Segurou a tropa ali, mas ele precisou dar uma resposta àqueles policiais que estavam muito revoltados. Então tem umas puxadas de comando que acontecem muito pontualmente.

E o caso no Salgueiro?

No Salgueiro fica muito claro isso, o policial morreu às seis e meia da manhã se não me engano. A operação começa às oito horas da manhã. Não houve tempo suficiente para saber se, de fato, a pessoa que matou o policial estava dentro da comunidade. Não tem informação suficiente. Eles entram com base em pouquíssimas informações, e levantar essas informações não é papel da Polícia Militar, é responsabilidade da Polícia Civil. Ele entra na comunidade para fazer essa comunidade pagar a conta da morte desse policial. A gente não sabe se essas pessoas que morreram têm a ver ou não com essa morte e a própria polícia em geral não sabe. Na minha pesquisa, eu perguntei para os policiais: “mas vocês sabem quem matou? Tem investigação a respeito?” A resposta geralmente é não. Você não tem um programa efetivo de prevenção da morte de outros policiais. Você não tem investigações sérias e pessoas que são individualmente responsabilizadas por essas mortes.

A gente tem uma megaoperação que dá ali visibilidade, um dia ou uma semana depois, que dá essa resposta e depois nada mais acontece. Volta-se à vida normal e espera-se a próxima morte para voltar ao ciclo. E isso vai se alimentando. Alguém mata um policial, a polícia mata mais. O comando deveria ser a pessoa responsável por esse caso e dizer: “bom, se um policial morre, onde eu coloco a minha energia?”. Não é colocando os policiais numa megaoperação que vai dar certo. Isso vai gerar mortes, mas nada além disso. A gente vai ter esses casos se repetindo várias vezes. Isso é efetivo? Quando eu pergunto [aos comandantes] como eles fazem para prevenir que outras mortes de policiais aconteçam, eles me respondem: “Eu faço uma megaoperação”. Como se isso fosse prevenir outras mortes, mas não previne. Se não, a gente não teria outras histórias para contar. E é sabido que isso acontece. As pessoas sabem que quando morre um policial vai ter uma operação com muitas mortes na sequência. Isso não previne que um policial seja morto dias depois, meses depois.

Por onde deveria passar esse protocolo de atuação em caso de mortes de policiais? Como deveria funcionar isso?

O primeiro ponto seria entender a real efetividade de uma megaoperação nesses casos. É importante ter o acompanhamento das mortes dos policiais. Entender o que aconteceu não em uma morte só, mas em muitas. Onde o policial morreu, por que morreu, como aconteceu, em que tipo de operação. A informação sobre a vitimização de policiais é muito baixa. Você tem pouquíssimas informações sobre essas mortes de policiais.

 A partir do momento em que morre um policial, você tem que ter uma intervenção. Você tem que ter psicólogos entrando no local e não é que não tenha, porque a Polícia Militar do Rio é a que mais tem psicólogos entre os seus quadros e eles tem um projeto efetivo de ir atrás de familiares. Existe um programa que dá suporte pra isso. Mas é preciso entender que quando você tem uma ocorrência, não só aqueles policiais mais próximos que vão ser afetados por isso. Mas é preciso entender que colocar eles armados na sequência em uma megaoperação é um desastre. Conversei com um policial que esteve em mais de uma ocorrência que teve letalidade. E ele me disse que ficou muitos e muitos meses revoltado, que não teve atendimento psicológico. Primeiro colocaram ele para trabalhar na mesma área. Ele se descontrolou. Aí deram férias compulsórias a ele. Mas ele me falou: “uma hora eu vou voltar pra rua e vou fazer alguém pagar essa conta”. Isso não é uma coisa que vá ser resolvida hoje, é um acompanhamento que será necessário durante muito, muito tempo. Esse é um problema da política de segurança como um todo, que é uma política de confronto. Esses policiais que participaram dessa megaoperação agora [do Salgueiro], essa megaoperação que deixou nove pessoas mortas. Isso tem um efeito sobre o policial. A polícia costuma negar esse efeito, dizer que o policial é forte. Mas se você não consegue acompanhar esse efeito, essas mortes vão se reproduzindo aqui e ali. E você fica nessa política de letalidade que a gente tem no Rio de Janeiro, a gente não consegue sair desse ciclo.

Em evento na Assembleia do Rio na última quinta-feira (25), o governador Cláudio Castro afirmou sem provas que “se as pessoas estavam camufladas no mangue, certamente coisa boa não estavam fazendo” | Julia Passos/Alerj

 

Você demonstra basicamente na sua pesquisa que reduzir a vitimização de policiais poderia ter efeitos positivos em termos da redução das mortes causadas por policiais. De que forma poderia-se prevenir a morte de policiais?

Eu trabalho com Segurança Pública desde 2008 e eu trabalho conversando com a polícia. Eu não sou dessas radicais do meio que não conversa com a polícia. Acho que a saída sempre é olhar a instituição policial. Você consegue enxergá-la e entender todas as dificuldades que existem no fazer policial. É muito simples a gente de fora dizer que o policial não pode matar. É óbvio que não pode matar. Mas é preciso entender quais são essas situações nas quais ele perde o controle, tentar entendê-lo como humano também. Por um lado, é preciso ter um olhar muito forte sobre vitimização e sobre a valorização policial como um todo. A vitimização é a ponta. Tem histórias e histórias por trás dessa vitimização. Você tem a política de confronto, tem como você expõe o policial ao risco muitas vezes. Por exemplo, você teve a operação no Jacarezinho, a última mais letal do Rio de Janeiro, que foi uma operação super pensada, que a Polícia Civil diz que fez dez meses de investigação para entender o que estava acontecendo ali antes de fazer a operação. A operação começa com a morte de um policial. Em minutos de operação. Quer dizer, você fez dez meses de investigação e o primeiro a morrer é o policial? Você não pensou que ia haver confronto? A responsabilidade do confronto é só de quem atira do outro lado, não é sua também? Claro que a gente tem um crime organizado muito forte. Mas a postura que a polícia se coloca diante desse cenário, essa guerra às drogas, isso gera a morte do policial e tem efeitos pra dentro da polícia. E você tem policiais trabalhando em condições muito precárias, sem estrutura física ou psicológica, que vai vendo situações muito fortes no seu dia a dia de trabalho sem ter protocolos claros de como ele atua em diferentes áreas para ser protegido. Isso tudo também resulta em vitimização.

Outro efeito que existe. Eu fui conversar com um comandante da UPP e ele me disse: “Eu sou viciado em conflito, em tiroteio”. Isso é um efeito que tem. Ele me disse assim: “Eu tô em casa, alguém me manda uma mensagem avisando que tá tendo conflito, eu saio de casa e venho pra cá”. Ele me disse que já chegou a rir em tiroteio. É uma maluquice que ele entrou por conta desses confrontos, ele vai procurar os confrontos. Isso é um efeito psicológico gerado por uma atividade tão complexa como é ser policial no Rio de Janeiro. É preciso entender as complexidades e conter esses efeitos. Um policial que procura conflito não pode ser subcomandante de uma unidade. Como ele tá lá? Como ninguém consegue observar? Outro ponto: a polícia dá medalhas por bravura. A gente fez um levantamento no Igarapé de promoção de policiais por bravura em 18 estados. Não importa a formação que ele tem, quanto tempo de instituição, ele pode ser promovido por bravura. A bravura é um ato de heroísmo que pode dar muito certo, mas pode dar muito errado.

Óbvio que a profissão policial exige coragem em algum nível, mas se você diz que se ele fizer um ato heróico ele será premiado é você dizer que ele pode se enfiar numa situação extremamente de risco e morrer esperando a promoção por bravura. Se você não premia o outro policial, que consegue mediar conflitos, que consegue diminuir a tensão de uma área.. Um ato de bravura que pode ser ele conseguir prender ou, no linguajar deles, “eliminar” alguém, isso pode ter volta. E esse efeito fica se alimentando. A vitimização policial é um jeito da polícia matar mais, mas também morrer. E esse entendimento é muito pouco claro ainda. Eu não tive fôlego para continuar a pesquisa, mas seria interessante entender também o outro lado da minha pesquisa: como o aumento da letalidade policial, das mortes causadas por policiais, levam também ao aumento da vitimização de policiais. São mortes que ficam se alimentando, o que é horrível, em um cenário em que no final a gente tá procurando segurança. E a política de segurança deixa a gente com muito mais medo no final.

 

https://apublica.org/2021/11/alguem-mata-um-policial-a-policia-mata-mais-e-um-ciclo-diz-pesquisadora/#_

 


O Pantanal camponês ameaçado pelo agronegócio

 

Emparedados por latifúndios de soja, pequenos agricultores da Transpantaneira (MT) também vivem estiagem histórica. Invasões, desmatamento, queimadas e venenos assolam as famílias. Organização torna-se chave para resistência



OutrasMídias | Crise Brasileira

por Le Monde Diplomatique Brasil | Publicado 02/12/2021 às 18:18 - Atualizado 02/12/2021 às 19:23 

 

Pedro Ponce, morador desde a década de 1970 da comunidade Zé Alves, olha com preocupação as marcas da seca (Crédito: Liana Coll)

Por Liana Coll, na Le Monde Diplomatique Brasil

Assim como para ribeirinhos e pescadores artesanais, trabalho árduo e o agravamento das condições para subsistência é a realidade da comunidade tradicional Nossa Senhora de Lurdes, mais conhecida como comunidade Zé Alves, em Poconé (MT). O município fica 100 quilômetros de Cuiabá e está em uma zona de transição entre o Cerrado e o Pantanal. Em Poconé, tem início a estrada conhecida como Transpantaneira, um dos pontos turísticos mais visitados para a observação da fauna do Pantanal. Cruzando a rota, chega-se à beira do rio Cuiabá.

A comunidade Zé Alves é composta por 12 famílias de agricultores familiares, que complementam a renda também com o extrativismo do cumbaru, árvore nativa do cerrado que dá uma castanha nutritiva, rica em ômegas e vitamina E. Diferente da comunidade de Porto Limão e dos acampamentos da região de Porto de Morrinhos, ela não está em torno de rios, mas cercada pelos latifúndios de monoculturas, especialmente da soja, às margens da Rodovia Adauto Leite (MT-451), no quilômetro 17. O uso intensivo de agrotóxicos nas fazendas do entorno, além da seca, vem dificultando a produção na comunidade.

 

Na comunidade Zé Alves, rega da horta precisa ser diária e família teme escassez de água diante do agravamento da seca (Crédito: Liana Coll)

 Se o Brasil já era campeão no uso dos agrotóxicos antes de 2019, o problema se agravou a partir do mandato de Jair Bolsonaro. Durante os quase três anos de governo, foram liberados mais de 1.400 novos agrotóxicos para uso. Houve também uma mudança na forma de classificação dos riscos pela Anvisa, dificultando a identificação da toxicidade dos produtos. O estado do MT é o campeão em consumo de agrotóxicos no país, e de 2019 a 2020 houve um aumento de 27% no uso, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).

Pedro Ponce e Lucinda Bernadete de Souza, casal de agricultores que vive desde a década de 1970 na comunidade Zé Alves, relatam as dificuldades de estarem cercados de fazendas que fazem o uso massivo de agrotóxicos. Eles veem uma conexão direta entre o aumento do ataque de pragas e a expansão das lavouras de soja. A agricultura familiar, baseada na agroecologia, utiliza apenas produtos caseiros para o controle de insetos, e acaba sendo atrativa para eles. O desmatamento, associado aos latifúndios, também incide sobre a diminuição de áreas de mata disponível para os animais. “A soja tá bem aí, pertinho de nós. Onde eles trabalham, eles atacam com veneno. Pra nós, que trabalhamos só com veneno caseiro, é um prejuízo, porque se tivesse uma mata livre, um campo livre, não tinha essa tropa de bichos atacando. A gente tem pouca força de debater isso, porque o rico tem mais prioridade que o pobre”, diz Lucinda.

A área plantada de soja na região de Poconé subiu de 300 hectares, em 2005, para 11 mil hectares, em 2020, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Apenas na fazenda campeã estadual de produtividade em soja em 2018, pertencente a Raul Santos Costa Neto, são 1.500 hectares. O sítio de Pedro e Lucinda tem 9 hectares. Na horta são oito qualidades de folhagens, como rúcula, alface e almeirão, além de temperinhos, como o coentro e a cebolinha. Através de programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), a família entrega, a cada quinzena, uma carga de 200 a 500 maços de folhagens para o município de Poconé.

A rotina da produção envolve acordar todos os dias às 4h, descansar entre 10h e 16h, quando a intensidade do sol não permite trabalhar, e seguir até 19h. A jornada é ainda mais longa quando chega a época da produção de rapadura ou de colheita da mandioca. Nesse período, eles levantam logo no início da madrugada. Devido à seca, alguns cultivos, incluindo a mandioca, não estão vingando. A mudança do clima também impactou em alterações na qualidade da cana, o que fez com que fosse difícil a produção da rapadura neste ano. “Agora nós estamos com pouca planta porque a seca avançou muito, e nos próximos meses [outubro e novembro], vai ser mais difícil. Três anos de queima no Pantanal tá dando esse resultado negativo para nós. Essa região nossa não sei não se vai resistir”, afirma Pedro.

No final da tarde do dia 12 de setembro, um domingo de alta temperatura, passando dos 40 graus, os netos de Pedro e Lucinda ajudavam a molhar as plantas. “Molha a alfacinha ali”, orientava Pedro, preocupado com o desenvolvimento das mudas. Sem regar diariamente, os cultivos não sobrevivem. Alguns, mesmo com esse cuidado, não estão resistindo, como se podia notar nas folhas secas das pimenteiras, as quais Pedro olhava com preocupação.

Um dos filhos de Lucinda e Pedro, também de nome Pedro Ponce, um dos coordenadores da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira, conta ainda que costumava pescar em um córrego, a 600 metros da propriedade da família. “Eu pescava muito nele, pegava as traíras e lambaris para dar um sustento à casa. Agora já tem três anos que secou, mas já há uns anos antes não enchia direito”.

Para viabilizar a rega e o consumo próprio, um poço artesiano abastece as famílias da comunidade. “Aqui são 83 metros de poço artesiano, que foi furado em 1985. Graças a Deus tá aguentando, mas estamos com a pulga atrás da orelha. Já pensou ficar sem água? O poço abastece 12 famílias, mandando água pra lavar roupa, levar vasilha, molhar a horta, ainda vai água pro gado, galinha, porco, cachorro”, conta Pedro pai. Ele vê com tristeza, no entanto, o fato de que em outras comunidades, mesmo furando a terra para a instalação de poços, não se tem achado água. “Tem muito rio secando, muitos poços secando, pessoal adoidado furando poço artesiano, mas não se acha água. Ou, se acha, não tem duração”.

O agricultor também aponta a transição que diversas fazendas de pecuárias têm realizado, deixando a criação de gado para apostar nos monocultivos. Especialmente após a segunda década dos anos 2000, a produção de grãos foi intensificada, acarretando também em maior desmatamento.

Segundo o assessor do MPE-MT, os dois principais vetores do desmatamento no Mato Grosso, são a pecuária e o plantio de grãos, como a soja, atividades que estão ligadas a um ciclo de uso da terra pelo agronegócio. “Qual a lógica do desmatamento? Primeiro ocorre para a pecuária, para consolidar, não deixar a floresta crescer, e uns cinco anos depois vira uma área de plantio de grãos”, aponta Rafael. Ele ainda outras atividades causadoras do desmatamento. Uma delas concentra-se no norte do estado, o chamado “Nortão”, com a retirada ilegal de madeira. “Naquela região, o desmatamento se dá tanto pelo tráfico de madeira como pela instalação de pecuária. No ciclo produtivo, você remove a floresta, aproveita a madeira, geralmente de forma ilegal, coloca fogo, abre o que sobrou, instala o pasto e coloca o boi”, diz.

Para Rafael, a maior permissividade do governo Bolsonaro em relação ao desmatamento, com o desmonte de órgãos de fiscalização, analisa, agravam a situação. O MT é o segundo estado que mais desmata a floresta Amazônica, segundo o Instituto Centro de Vida (ICV). Entre 2019 e 2020, houve um aumento de 31% do desmatamento em relação ao ano anterior.

 

Dificuldades de plantio com a seca e escassez de pescado deixam famílias na comunidade da Barra do São Lourenço em situação de insegurança alimentar (Crédito: Liana Coll) 

 

Também filho de Pedro e Lucinda, Luís Carlos Ponce é presidente da Cooperativa Central da Baixada Cuiabana, e aponta a relevância da organização em associações e cooperativas para fortalecer a agricultura familiar, diante de tantas ameaças. “Nós estamos sofrendo, mas conseguindo resistir através das organizações. As famílias isoladas estão sendo engolidas pelos fazendeiros. A pressão é grande do latifúndio. O propósito do latifúndio é oprimir, comprar a preço de banana as pequenas propriedades. Já têm comunidades que foram esvaziadas e estão sendo atacadas pelo veneno que passa de aviãozinho”, observa Luís, para quem o trabalho da cooperativa e da associação tem fundamental importância para a geração de emprego e renda para as famílias, principalmente para os jovens que ainda estão no campo.

A mineração também é um outro fator do desmatamento no estado, ainda que em menor grau. No município de Poconé, um dos maiores exportadores de ouro do Brasil, são mais de 20 garimpos. Desde o século XVIII, a cidade abriga exploração de garimpos. A atividade é bastante lucrativa, e rendeu em 2020 R$595 milhões às mineradoras de ouro instaladas na cidade. No entanto, há pouco retorno para a população local. Dos quase R$600 milhões, ficaram com a Prefeitura em impostos $4,5 milhões. Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Renúncia e Sonegação Fiscal da Assembleia Legislativa do MT, um empresário do ramo minerador, Filadelfo dos Reis Dias, disse ainda que para cada R$1 pago em impostos, aproximadamente R$10 são sonegados.

 “Como é que eu vou ficar num lugar em que não posso comer, em que não posso ter vida?”

Após a ida à comunidade Zé Alves em Poconé, nos deslocamos ao município de Barão de Melgaço. De lá, partimos para uma viagem de 12 horas de barco com rumo às comunidades da Barra do São Lourenço e do Amolar. A chegada ocorreu na comunidade tradicional da Barra do São Lourenço. Eram seis da tarde do dia 14 de setembro de 2021 e o calor começava a amenizar, depois de registrar uma máxima de 38 graus na região. Localizada nas margens do rio São Lourenço, a comunidade está logo na divisa entre o Mato Grosso e o Mato Grosso do Sul, na região da Serra do Amolar. Leonida Aires de Souza, mais conhecida como Eliane, espera nossa chegada na beira do rio, no topo do barranco que cada vez fica mais alto devido à seca. Ao descer do barco, tímidos pingos de chuva caem e Eliane comemora. “Vocês trouxeram a chuva, que benção!”. Os pingos não engrossam, no entanto, e caem somente por cinco minutos. A angústia pela seca se escancara.

Na comunidade da Barra do São Lourenço só se chega de barco ou de avião. A distância até a cidade de Corumbá é de aproximadamente 230 quilômetros, percurso que pode levar até um dia de barco dependendo do motor da embarcação e das condições do rio. São 25 famílias que residem atualmente na comunidade, e quase todas têm laços de parentesco. A coleta de iscas vivas, a pesca e a agricultura familiar para subsistência são as principais atividades desenvolvidas. A seca, no entanto, intensificou as dificuldades para os ribeirinhos. A escassez do pescado e da isca e as dificuldades de fazer vingar uma planta permeiam o cotidiano, assim como o rastro de destruição causado pelos recentes incêndios.

“A nossa vida aqui não é fácil”, relata Cleusalina Xavier de Farias, moradora da comunidade desde 1995 e cunhada de Eliane. “Trabalho junto com meu esposo na cata de isca e nós temos dificuldades depois das queimadas e da seca. Tá difícil a isca porque secou todos os lugares, as baías. A gente tem que catar de a pé naquela lama, o que não é fácil. Sofremos bastante devido à seca. As plantas não vão pra frente. Se planta uma mandioca, seca. Os peixes sumiram e ainda tivemos dificuldade devido às queimadas. Depois das queimadas sofremos muito com o temporal de cinzas, que nos prejudicou”.

 

A cata de iscas, relata Cleusalina, está difícil por conta da seca, que deteriorou locais onde as iscas vivem (Crédito: Liana Coll)

 Cleusalina e o marido são “isqueiros”, como são conhecidos os profissionais que coletam a isca. A atividade, insalubre e arriscada, é uma das principais fontes de renda na comunidade, já que a pesca se torna cada vez mais difícil. No dia 15 de setembro, o casal havia trabalhado das 7h às 13h na coleta de isca. “Hoje foi difícil pra mim”, diz Cleusalina, mostrando um curativo no dedão do pé. Mesmo com o ferimento, o casal coletou 220 caranguejos. A unidade é vendida a cerca de R$0,80 para os barcos turísticos. Geralmente, os barcos encomendam uma quantidade por semana, e os ribeirinhos trabalham até a conclusão do lote.

As queimadas se somam ao cenário de degradação. A intensificação das queimadas trouxe um agravamento das condições de vida. Leonora Aires de Souza, também isqueira, lembra do desespero para proteger a vida da família em 2020, e resume a situação enfrentada desde então. “No ano passado o fogo foi uma catástrofe para nós. Quase matou a gente igual matou as plantas e os animais. Matou pássaros, bichos, bugio. Eu e meu esposo, doente, corremos daqui. O Artur [neto] estava pequenininho, a Isabela minha outra netinha também. Meu filho jogou eles no bote e correu com eles. Joguei uma mala, um mosquiteiro por causa da noite e fomos lá na boca do Rio Velho, lá embaixo. Logo depois veio um tornado de cinza, que quase matou a gente também”. O Rio Velho de que fala Leonora hoje está seco. Moradores da região tentaram abrir o curso do rio à mão, mas não foi possível, e famílias que residiam em seu curso precisaram se mudar. Hoje é possível andar a pé por onde era o rio. O cenário lembra uma aridez desértica.

Dona Eliane (à direita) mostra o Rio Velho, que secou neste ano (Crédito: Liana Coll)

 As dores da degradação do Pantanal se sobrepõem. Na correria de conter o fogo em 2020, o que foi possível graças a uma mobilização do Corpo de Bombeiros e da própria comunidade, uma criança de dois anos caiu na água e veio a falecer. As marcas do luto ainda perpassam a comunidade. “Agora, meu Deus do céu, é uma vida sofrida”, diz Maria, avó do menino, que vive agora apenas com um dos filhos, já que os outros foram embora e recentemente o marido faleceu.

As dificuldades, para a comunidade, também marcam a sua própria constituição. Em 1994, grande parte das famílias que hoje integram a Barra do São Lourenço foi expulsa do local onde vivia em decorrência da criação de uma reserva privada, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Acurizal. Relembrar esse processo traz memórias de violência. “Falaram que lá já era reserva e nós não podíamos continuar a morar. O peixe era da reserva, a isca da reserva, aí que nós mudamos. Peguei um bote, vim com a mudança, com as crianças e tudo, vim ajeitar o rancho e fomos lá buscar o resto e tinham tacado fogo em tudo”, relembra Leonardo Jesus, morador da região há 38 anos.

Para Leonora, as lembranças daquele dia em que foram expulsos, quando tinha pouco mais de 20 anos, são vívidas. “Nunca ia esperar que essas coisas iam acontecer. Eu lembro como se fosse hoje. Era novembro de 1994 e chegou um moço lá. Meu esposo foi receber ele. ‘Chega meu senhor’, falou pra sentar e ele disse que não, que a demora era pouca. Na época, o caboclo não sabia de nada, se a gente tinha direito, se a lei podia fazer isso com a gente, se tinha que sair ou não. E ele falou ‘vocês têm que sair, é reserva’. A gente não tinha canoa, não tinha chalana, não tinha como mudar nem pra onde ir”.

Foi então que, mesmo com parte dos pertences e das estruturas das casas incendiadas, as famílias se fixaram na margem esquerda do Rio Paraguai, onde está a Barra do São Lourenço. Em 2013, quase 20 anos depois da expulsão, foi concedido às famílias da comunidade um Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS) coletivo, expedido pelo Ministério Público Federal (MPF). O TAUS reconhece o direito da comunidade, que há pelo menos 100 anos habita a região, de permanecer no território em que estão. Também dá o direito de migração sazonal, devido aos períodos de inundação, para uma área de 13,9 hectares da RPPN denominada Aterro do Socorro. No entanto, não houve reparação em relação ao episódio violento de expulsão.

Se o episódio da década de 1990 afetou as famílias de forma radical, hoje as condições de vida pressionam os ribeirinhos gradualmente. Na Comunidade da Barra de São Lourenço, viviam mais pessoas. Os mais velhos relatam que o agravamento das dificuldades ocasiona em um êxodo para as cidades. Jovens sem perspectiva, devido às condições de vulnerabilidade e à escassez de peixe e de isca, acabam indo trabalhar na cidade ou nos barcos turísticos, que também são os grandes compradores das iscas dos ribeirinhos.

Na Barra do São Lourenço, a maior parte das famílias vive lado a lado, no mesmo pedaço de terra onde está a Escola Municipal Rural Polo São Lourenço e uma miniestação de tratamento de água, que funciona através de energia solar e foi instalada com apoio da Organização Não-Governamental (ONG) Ecologia e Ação (Ecoa) no início de 2021. Bióloga e integrante da Ecoa, Paula Isla Martins aponta a importância do trabalho e da articulação da ONG junto a outras organizações da sociedade civil para suprir algumas das carências de comunidades cujos direitos básicos não são atendidos.

 

“Agora, meu Deus do céu, é uma vida sofrida”, diz Maria (Crédito: Liana Coll)   

 Organização da formação de brigadas anti-incêndio, projetos de geração de renda e implementação de miniestações de energia solar e de esgoto são algumas das frentes de atuação da Ecoa, que também passou a atuar em assistência emergencial diante do problema de fome, agravado pela pandemia e pela condição dos rios. “Vemos que cada vez é mais crucial e necessária essa articulação, porque tivemos também perda de espaço da sociedade civil na implementação e políticas públicas, então é cada vez mais importante a gente se unir em rede”, diz Paula.

Além da parte central da comunidade, há casas mais isoladas na Barra de São Lourenço, onde é preciso ir de barco e onde o acesso à agua é ainda mais difícil. Em uma delas vive Verônica dos Santos e seu filho, Julho Marques da Silva. Diferente da parte “central” da comunidade, na casa deles é preciso baldear água do rio, para o consumo próprio e para aguar as plantas, na tentativa de que vinguem. Julho faz esse processo todos os dias sozinho, já que a mãe tem idade avançada. “Tá tudo errado, filha. Ele tá jogando água pé por pé com balde, filha. Imagina, com a altura do barranco, jogar água pé por pé”, diz Verônica, que relembra quando a casa era fértil em plantas. “Plantas de remédio”, diz, como o boldo, outras plantas de chás e frutas. “Limão é remédio, dona”, explica. Verônica deseja conseguir uma bomba para poder acessar a água sem o filho precisar subir e descer barrando o dia inteiro.

Sentada de pernas cruzadas no interior da casa, na qual tentam entrar constantemente pássaros em busca de comida, a senhora diz que mais uma situação agravou as condições de vida sua e do filho, pois recentemente teve sua aposentadoria cortada. Não sabe por que, já que fez prova de vida faz pouco, e nem sabe quando poderá ir à cidade resolver a questão, já que Corumbá é longe e a carestia do combustível dificulta até mesmo o deslocamento dentro da comunidade. Enquanto isso, diz que há dias come só arroz e feijão, alimentos provenientes de doação de cesta básica, e que quando pescam uma piranha no dia é muito.

O acesso a apoio jurídico e atendimento médico para os ribeirinhos de Corumbá é assegurado por lei, através do programa Povo das Águas, que deve passar nas comunidades a cada três meses. A última vez que havia passado, segundo as comunidades, foi em abril. A Prefeitura de Corumbá, através da coordenadora do programa, Elisama Cabalhero, afirmou que as mudanças climáticas, com alterações nas condições de navegação, têm atrapalhado o cronograma das visitas. No entanto, considera que os direitos à saúde e à assistência social estão contemplados. O governo do Mato Grosso do Sul também foi questionado sobre políticas públicas para os ribeirinhos, através de e-mail, mas não retornou.

Doações de cestas básicas têm ajudado à comunidade a não vivenciar ainda mais o problema da fome. Mas Eliane, que também é uma das mulheres que integram a Associação de Mulheres Artesãs da comunidade, diz que ninguém quer viver de doações. O que almejam são condições para poder plantar e pescar e, assim, ter esperança de poder permanecer no local.

 

Eliane, artesã, afirma que muitos têm ido embora porque não têm oportunidade de emprego (Crédito: Liana Coll)

 “Eu planto, e não nasce, eu planto e não nasce. E aí acaba tirando da pessoa a esperança de continuar. Muitos dos nossos foram embora daqui, porque não têm oportunidade de emprego, não têm oportunidade de sobreviver. Então como é que eu vou ficar num lugar em que não posso comer, em que não posso ter vida? Algumas situações que nos criam, creio eu, que é para isso mesmo. Se temos todas essas pessoas e órgãos que têm força para fazer pela gente e ficam de longe, o que leva a gente a crer? Que estão fazendo isso para a gente desistir. Povoar a cidade pra quê? Eles têm a obrigação de fazer alguma coisa, não só pelo ribeirinho, mas pela natureza, e nós somos parte disso”, reflete Eliane.

 

 

Liana Coll é jornalista na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutoranda em Ciência Política na mesma universidade. Desenvolve também reportagens independentes, como o trabalho realizado no Pantanal, que contou com apoio da Rede de Comunidades Tradicionais Pantaneira. Autora do livro Elite econômica e política: a filantropia empresarial como forma de constituir um governo dentro do governo, publicado pela editora Telha em 2021.

 

https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-pantanal-campones-ameacado-pelo-agronegocio/

 

 

 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Sem fiscalização da ANM, ‘garimpos fantasmas’ legalizam ouro de terras indígenas e áreas protegidas

 

Lavras regularizadas, mas inativas, são usadas para acobertar origem ilegal do minério; entre 2019 e 2020, 6,3 toneladas de ouro produzidas no Brasil vieram de garimpos que só existem no papel