quarta-feira, 29 de abril de 2026

Jornalista é ameaçado após denúncia em rádio de Parauapebas


SUL DO PARÁ

Caso expõe grave ataque à liberdade de Imprensa no Pará


Blog Zé Dudu By Anna Carolina Vale on 29 de Abril de 2026


Jornalista Elson Brito

Um grave caso de intimidação contra a Imprensa acende o alerta no sudeste do Pará. O jornalista Elson Brito, da Rádio Arara Azul FM, em Parauapebas, denunciou ter sido alvo de ameaças após a divulgação de uma reportagem sobre explosão ocorrida em um silo de milho na região da Palmares Sul.

De acordo com Boletim de Ocorrência registrado na Polícia Civil do Estado do Pará, na última segunda-feira (27), sob o número 00071/2026.103274-7, o profissional passou a receber ligações insistentes de um homem identificado como João Paulo, apontado como sócio da empresa envolvida no caso noticiado.

Segundo o relato oficial, após três tentativas de contato ao longo do dia, o jornalista atendeu a ligação por volta das 16h09, momento em que foi alvo de uma sequência de ofensas verbais e ameaças diretas. Durante a ligação, o indivíduo teria afirmado que “a situação agora é pessoal” e insinuado que o comunicador não deveria continuar abordando o assunto, deixando no ar a possibilidade de represálias.

O conteúdo da ameaça, associado ao contexto, configura não apenas crime previsto no Código Penal, mas também uma tentativa explícita de intimidar e silenciar o exercício da atividade jornalística.

A reportagem divulgada por Elson Brito foi baseada em informações oficiais, extraídas de boletins de ocorrência registrados por envolvidos no caso, o que reforça a legitimidade do trabalho jornalístico e agrava ainda mais a tentativa de intimidação.


ATAQUE À DEMOCRACIA

Especialistas apontam que ameaçar jornalistas em razão de suas reportagens representa uma afronta direta à Constituição Federal, a qual garante a liberdade de imprensa e o direito à informação.

A Carta Magna assegura, em seu artigo 5º, a livre manifestação do pensamento e a liberdade de expressão, além de vedar qualquer forma de censura. Já o artigo 220 reforça que a informação não pode sofrer restrições, sendo um dos pilares do regime democrático.

Diante disso, o caso ultrapassa a esfera individual e assume caráter institucional, pois atinge diretamente o direito da sociedade de ser informada.


INVESTIGAÇÃO E PROTEÇÃO

O caso já está sob responsabilidade da Polícia Civil, que deverá apurar os fatos e identificar formalmente o autor das ameaças. A expectativa é de que medidas sejam adotadas com urgência para garantir a segurança do jornalista.

Entidades da sociedade civil e profissionais da comunicação cobram uma resposta firme das autoridades e destacam que o silêncio diante desse tipo de crime pode abrir precedentes perigosos.


ALERTA À IMPRENSA

O episódio reacende um debate preocupante: o aumento das pressões e ameaças contra jornalistas no exercício da profissão.

Para analistas, permitir esse tipo de intimidação é enfraquecer a democracia e colocar em risco o direito fundamental da população à informação livre e independente.

A Reportagem segue acompanhando o caso.



Carlos Magno
Jornalista DRT/PA 2627

 

 

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Plataforma para denunciar Big Techs é lançada no Brasil

BIG TECH


Qualquer pessoa pode fazer uma denúncia na #VazaBigTech; objetivo é coletar informações de interesse público



Matéria Núcleo Jornalismo | | Por Sofia Costa • 28 de abr. de 2026



A plataforma #VazaBigTech, parceria da CTRL+Z com a Sleeping Giants Brasil, foi lançada nesta quinta, 28.abr, para receber denúncias sobre Big Techs. O foco são problemas sistêmicos e coletivos que, de outra forma, não chegariam ao conhecimento público.

Para denunciar, basta acessar o site, descrever o caso com o máximo de detalhes e anexar documentos ou provas. A equipe responsável pode entrar em contato durante o processo de apuração e as informações podem ser enviadas anonimamente.

É recomendado que, ao registrar a denúncia, o navegador Tor seja utilizado para garantir segurança máxima. E, para dar vazão ao material coletado, os responsáveis pela plataforma farão parcerias com organizações de direitos humanos e veículos jornalísticos.

 


Texto Sofia Costa
Edição Alexandre Orrico 

 

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

Educação: o antídoto contra a misoginia

 

Reduzir a misoginia a um simples “ódio às mulheres” é ignorar a teia social complexa e sutil. Ela se infiltra no dia a dia: em piadas, no descrédito da voz feminina, no controle sobre corpos e escolhas, e floresce em culturas de raiva no ambiente digital. Embora seja um problema profundo, o caminho para a cura passa por um pilar indispensável: a educação.


Bruna Pellegrini*

Essa aversão se revela quando o universo feminino é tratado como “menor” ou quando as emoções de uma mulher são rotuladas como “loucura” ou “histeria”. A ideia de que mulheres devem suportar a dor em silêncio cria o mito da “guerreira”, sem que ninguém pergunte por que ela precisa lutar tanto. E, a resposta é simples: a sociedade as obriga. Essa construção cultural tem consequências reais e devastadoras, pois a noção de que o corpo feminino é uma propriedade alheia é a base para estatísticas alarmantes e os dados são brutais.

 

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024, quase 9% dos estudantes de 13 a 17 anos no Brasil já foram forçados a ter relações sexuais. Entre as meninas, o índice salta para quase 12%. O mais chocante é que, na maioria dos casos, a agressão parte do círculo de confiança, familiares, namorados e amigos, destruindo a ideia do lar como um lugar seguro.

 

A misoginia não é natural; é um projeto histórico. Como aponta a filósofa Silvia Federici, o capitalismo domesticou o corpo feminino para servir a interesses econômicos, consolidando uma ordem patriarcal. Ao delegar às mulheres ao trabalho não remunerado do cuidado, o sistema garantiu sua dependência. O desprezo virou ferramenta de poder.

 

Se a misoginia é uma construção, ela pode ser desfeita, e a educação é a principal ferramenta. A escola precisa ir além do básico, incluindo o debate sobre gênero, valorizando as contribuições femininas na história e, acima de tudo, treinando professores para combater o machismo em sala. É essencial ensinar os jovens a filtrar a desinformação online, especialmente a que vem de redutos misóginos como a cultura "incel", onde a frustração masculina se transforma em ódio e incitação à violência.

 

O respeito, contudo, se aprende primeiro em casa, com a divisão de tarefas e o incentivo para que meninos e meninas tenham as mesmas oportunidades. Um diálogo aberto sobre empatia é a melhor maneira de criar homens que não se sintam ameaçados pela força feminina. A mídia também tem seu papel, pois quanto mais mulheres protagonistas virmos em filmes, séries e no jornalismo, mais rápido quebraremos os estereótipos.

 

A luta contra a misoginia não é uma “guerra dos sexos”, mas uma busca por direitos humanos que beneficia a todos. Questionar os padrões de gênero que também aprisionam os homens é o caminho para uma sociedade mais livre e justa para todos.

 

* Bruna Pellegrini é doutora e mestre em Comunicação, pesquisadora na área e gênero, sexualidade e feminismo e professora universitária na UniCesumar de Maringá (PR).

 

Contatos para imprensa:

Weber Shandwick

E-mail: vitru@webershandwick.com

 

Priscilla Poubel – ppoubel@webershandwick.com | Telefone: (21) 9 8351-0185

Paulo Lima plima@webershandwick.com | Telefone: (11) 9 8398-6996

 

 

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sábado, 25 de abril de 2026

Vale abre inscrições para edital nacional de R$ 30 milhões voltado à cultura

 CULTURA

Este é a sétima edição da Chamada Instituto Cultural Vale, que seleciona projetos de todo o país. As inscrições podem ser feitas até 15 de maio 
 
Publicado em 24/04/2026| às 16:04| Brasil 


A Vale, maior investidora privada em cultura do País pelo quinto ano consecutivo, lançou a Chamada Instituto Cultural Vale 2026. O edital nacional oferece R$ 30 milhões para projetos culturais de todo o Brasil, por meio da Lei Rouanet (Lei Federal de Incentivo à Cultura), com o objetivo de fomentar a cultura e o desenvolvimento territorial, fortalecer a economia criativa, valorizar as diversas expressões artísticas e democratizar o acesso à produção cultural brasileira.

As inscrições vão até dia 15 de maio e estão disponíveis no site institutoculturalvale.org, juntamente com o regulamento completo. 

“A Vale acredita que a cultura é uma poderosa ferramenta para desenvolvimento dos territórios e transformação social. A cada ano, a Chamada Instituto Cultural Vale nos conecta com a potência artística do Brasil, impulsionando projetos que valorizam nossa diversidade, geram valor sociocultural e movimentam a economia criativa em todo o país”, diz Grazielle Parenti, vice-presidente executiva de Sustentabilidade da Vale. 



A sétima edição do edital vai selecionar projetos em sete áreas:

  • Artes cênicas: Eventos artísticos relativos às seguintes manifestações: circo, teatro, dança e ações de capacitação e treinamento.
  • Humanidades: Ações de incentivo a leitura e escrita criativa e eventos literários, como festas literárias, slams, saraus e outros formatos de ação literária.
  • Artes visuais: Exposições de artes visuais, em todas as técnicas, incluindo grafite, xilogravura, fotografia, bordado, serigrafia, escultura, arte digital, street art, instalação, entre outras, bem como ações educativas/capacitação nas Artes Visuais.
  • Música: Apresentações musicais ou itinerâncias de música erudita, instrumental, coral com viés de formação/capacitação musical.
  • Patrimônio cultural: Ações de preservação do patrimônio imaterial, incluindo os saberes e modos de fazer tradicionais, rituais e festividades que marcam as diversas religiosidades e outras práticas sociais.
  • Museu e memória: Exposições realizadas em Museus ou com acervos de museus.
  • Audiovisual: Festivais ou exibição de cinema.

Podem se inscrever pessoas jurídicas com sede no Brasil e atuação comprovada no setor cultural. A seleção dos projetos será realizada com a participação de pareceristas externos (profissionais de referência em suas áreas de atuação) e de comissões internas da Vale e do Instituto Cultural Vale.

Impacto e abrangência nacional

Desde sua criação, em 2020, o edital Chamada Instituto Cultural Vale já patrocinou 353 projetos em todo o país, com um investimento total de R$ 165 milhões por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Em 2025, foram contemplados 65 projetos nas cinco regiões do Brasil.

A Chamada se integra a um conjunto de editais promovidos pelo Instituto Cultural Vale. Ao longo do ano, os quatro espaços que integram o Instituto – Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (PA), Centro Cultural Vale Maranhão (MA), Memorial Minas Gerais Vale (MG) e Museu Vale (ES) – realizam editais regionais com foco no fomento à arte e cultura locais. O Instituto Cultural Vale também é parceiro do Ministério da Cultura e da CUFA no programa “Rouanet nas Favelas”, que visa a nacionalizar os recursos de incentivo para territórios de favela.

Sobre a Vale

A Vale acredita que a cultura transforma vidas. Pelo quinto ano consecutivo é a maior apoiadora privada da Cultura no Brasil, patrocinando e fomentando projetos em parcerias que promovem conexões entre pessoas, iniciativas e territórios. Seu compromisso é contribuir com uma cultura cada vez mais acessível e plural, ao mesmo tempo em que atua para o fortalecimento da economia criativa.

(Ascom Vale)

 

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Mineração ilegal deixou vestígio de mercúrio 50 anos após exploração na Mata Atlântica

POLUIÇÃO

Práticas ilegais de garimpo deixam rastro de poluição que afeta o solo e microrganismos por décadas após abandono da atividade na região 

Publicado: 23/04/2026 às 8:16 | Texto: Sthephany Oliveira* | Arte: Daniela Gonçalves*

Em longo prazo, o mercúrio permanece ativo no solo, representando risco para a microbiota, os animais e até para os seres humanos, porque pode entrar na cadeia alimentar. Na imagem, impacto do garimpo no Parque Nacional do Jamanxim – Foto: Wikimedia Commons


Pesquisa conduzida em quatro biomas brasileiros avaliou qualidade de solos que passaram por atividades ilegais de mineração. Amostras coletadas na Mata Atlântica indicam persistência de contaminação por mercúrio 52 anos após garimpo na região. Diante dos impactos desse resíduo metálico no ecossistema, pesquisadores da USP trazem uma solução baseada no uso de biocarvão, material que absorve o mercúrio e pode repor o carbono no solo.

O estudo, realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, investigou de que forma práticas ilegais de mineração e variações climáticas sazonais influenciam a mobilidade do mercúrio no meio ambiente, a qualidade da matéria orgânica e a estrutura da comunidade bacteriana de solos de quatro biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.

Matheus Bortolanza Soares – Foto: Lattes
Estima-se que cerca de 700  toneladas de mercúrio são
depositadas no meio ambiente a cada ano devido à mineração ilegal de ouro, que tendem a se acumular no solo e em ambientes aquáticos. Segundo Matheus Bortolanza Soares, pesquisador e autor do artigo que estudou os impactos da prática no solo, a quantidade de mercúrio despejada é muito maior quando o processo é artesanal, com baixa tecnologia, ferramentas inadequadas ou falta de conhecimento para extrair o minério de forma menos poluidora.

“O mercúrio é usado na mineração para recuperar o pó de ouro, formando a pepita. Então, existe uma razão ideal de mercúrio para a quantidade de ouro. Mas, na mineração ilegal ou artesanal, essas proporções não são necessariamente respeitadas”, afirma Soares ao Jornal da USP.

 “Como a mineração ilegal não tem fiscalização adequada, as pessoas que a praticam não são diretamente responsabilizadas e cobradas para recuperar ou mitigar as consequências ambientais do uso da terra garimpada”, explica o autor do artigo, que comparou amostras de solo garimpado com amostras de solo usado para pastagem, observando a perda biológica do solo decorrente da atividade de mineração.

 

A persistência da contaminação

Entre as áreas avaliadas, apenas as minas no Cerrado e Pantanal permaneceram ativas, ou seja, ainda eram garimpadas e recebiam resíduo de mercúrio continuamente. As minas da Amazônia ficaram inativas por cinco meses, e, na Mata Atlântica, estavam inativas por 52 anos. “Alguns locais monitorados estavam há mais de 50 anos sem exploração de ouro ou outro minério, e ainda apresentavam vestígio do impacto da mineração. Em longo prazo, o mercúrio permaneceu ativo no solo, o que representa um risco para a microbiota, os animais e até os seres humanos, porque esse elemento pode entrar na cadeia alimentar”, afirma Bortolanza.

O trabalho ainda avaliou a influência das condições climáticas na dinâmica do carbono e do mercúrio, que são fortemente controladas pela disponibilidade de oxigênio e pela entrada sazonal de matéria orgânica fresca na terra: “No nosso estudo, foi possível quantificar, de forma inédita, o efeito das chuvas e da seca na reposição de matéria orgânica no solo, que impactam o microbioma”, afirma o autor.

As amostras de solo coletadas foram submetidas a diversas análises, incluindo extração, sequenciamento e processamento de DNA, com o objetivo de avaliar o impacto da atividade de mineração na estrutura e composição da comunidade bacteriana.

 

O mercúrio é usado na mineração para aglutinar o ouro e formar a pepita – Foto: Wikimedia Commons

 

Empobrecimento do solo e seleção artificial de bactérias

Com condições climáticas tão diferentes, de bioma para bioma, foi observada a criação de “filtros ambientais”, que refletem as condições hidrológicas e químicas de cada região. Esses filtros foram responsáveis por selecionar comunidades microbianas específicas, que foram favorecidas pela tolerância ao mercúrio e foram capazes de sobreviver e se multiplicar em ambiente de escassez de nutrientes e contaminação. Com o estresse cumulativo por despejo de mercúrio, os pesquisadores acreditam que as mudanças no microbioma do solo alteram os caminhos de decomposição da matéria orgânica e o equilíbrio do solo, ameaçando o armazenamento de carbono e a resiliência do ecossistema.

“Imagine que os microrganismos do solo participam de uma sociedade, onde cada um tem uma função para a manutenção do sistema. Se você reduz a diversidade, algumas funções são perdidas. Como na organização humana, se não houver uma pessoa para tirar o lixo, ele vai se acumular, e isso vai gerar um problema, um desequilíbrio. Quando a mineração reduz o teor de carbono do ambiente, o alimento do microrganismo é removido e ele começa a desaparecer. Somado a isso, quando o mercúrio, que é um contaminante tanto para eles como para a gente, é introduzido no solo, mais espécies de bactérias são eliminadas. Assim, o resultado é uma sociedade com menos quantidade e diversidade de microrganismos, o que compromete diversas funções essenciais”

Segundo Luís Reynaldo Ferracciú Alleoni, professor do Departamento de Ciência do Solo da Esalq e supervisor do estudo, a sobrevivência de poucas espécies que resistem ao contaminante representa um problema para o solo, que depende da variedade microbiana para manutenção do ecossistema. “Alguns elementos, quando estão na concentração correta no solo, são nutrientes para as plantas. Em doses altas, esses elementos podem se tornar contaminantes. O caso do mercúrio é pior ainda, porque ele não é um nutriente; ou seja, não é importante para a manutenção da vida das plantas nem dos animais, e é extremamente tóxico”, afirma.

Nada se perde e nada se cria, tudo se transforma

O impacto do mercúrio nas regiões de garimpo é ampliado devido à retirada das camadas superficiais do solo que são ricas em matéria orgânica, e que, de acordo com as variações climáticas locais, podem afetar em maior ou menor grau os ciclos biogeoquímicos e causar a degradação de funções ecossistêmicas.

Nas interações entre seres vivos e meio ambiente, alguns elementos químicos são essenciais para a manutenção da vida, como o carbono e o nitrogênio – elementos que circulam entre o solo, a atmosfera e os organismos vivos. Esses ciclos são fundamentais para o funcionamento dos organismos e para o equilíbrio do meio ambiente. A perda de carbono e nitrogênio do solo reduz os nutrientes e a energia disponível para microrganismos, diminuindo a atividade microbiana, a decomposição e a mineralização de nutrientes, que impactam todo o local e ameaçam comunidades humanas adjacentes.

“Os microrganismos são mediadores de uma série de reações que mantêm o equilíbrio do ecossistema. Então não adianta tentar recuperar o solo pensando nele como um sistema não vivo, é preciso pensar estratégias de recuperação que considerem esses seres vivos e as funções que eles desempenham no ambiente.”, destaca Alleoni.

 

Cientista em campo examinando a saúde do solo – Foto: Wikimedia Commons

 

 

Restauração “viva”

Segundo o especialista, estratégias de restauração ambiental devem priorizar a reconstrução dos estoques de matéria orgânica, a redução da mobilidade do mercúrio e a preservação da diversidade funcional microbiana, focando nas trajetórias de recuperação em longo prazo. “Conhecendo os microrganismos nativos que foram sumindo do solo, qual função eles deixaram de desempenhar, e sabendo que a presença deles é importante para reequilibrar esse ambiente é possível desenvolver estratégias de recuperação, direcionando nutrientes, fertilizantes ou qualquer outro insumo”, destaca Bortolanza.

O pesquisador ainda traz uma solução verde inicial: a utilização de biocarvão. “Como o biocarvão é composto de quase 100% de carbono, ele funcionaria para repor esse elemento no solo, além de reter água e atuar como uma esponja que absorve o mercúrio e reduz a toxicidade e a circulação dele no ambiente. Essa técnica seria a base das estratégias para recuperar uma área minerada, porque ele retém o contaminante, que é extremamente caro e difícil de retirar por outros meios.”

Por permanecer por décadas no solo, o mercúrio acaba sendo absorvido por plantas e animais que interagem com o ambiente e com as comunidades humanas locais. Por isso, a presença do contaminante também oferece risco à saúde humana, podendo infiltrar-se na dieta das pessoas e causar graves intoxicações.

“O solo é sempre lembrado por conta da produção de alimentos, mas ele também funciona como um depósito de lixo, resíduos de indústria e construção civil, poluentes, óleos e todo tipo de material. A química ambiental é uma área crescente que estuda o solo que não necessariamente tem um fim agrícola, mas é afetado pela ação humana. O próprio estudo do Matheus mostra que um elemento tóxico decorrente da mineração ilegal fica por décadas disponível e oferecendo risco à saúde pública”, afirma Alleoni.

Por fim, o professor destaca que, por causa desse impacto na saúde pública, o trabalho apresenta um resultado que pode servir para a formação de novas políticas públicas. “Esse é um papel muito importante que a universidade e os centros de pesquisa cumprem.”

O estudo contou com o apoio do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e foi conduzido em colaboração com o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri (Esalq/USP e CCARBON) e Lucas William Mendes (Cena).

O artigo Illegal gold mining filters soil bacterial communities and enhances mercury mobility across Brazilian biomes: A multi-season study, publicado no Journal of Hazardous Materials, pode ser acessado neste link.

Mais informações: bortolanza@usp.br, com Matheus Bortolanza Soares

*Estagiária sob orientação de Tabita Said

**Estagiária sob orientação de Simone Gomes

 

Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo. 


quarta-feira, 22 de abril de 2026

ATL 2026 em Brasília pressiona os Três Poderes por avanços nos direitos territoriais


POVOS ORIGINÁRIOS

Mais de 7 mil indígenas cobraram demarcações, dentre outros direitos, durante mobilização histórica na capital federal no começo de abril

Origem Agencia Pulsar |abril 21, 2026 ! 5 min para ler

Por meio de cartas a cada um dos Poderes do Estado, indígenas apoiaram avanços, mas demandaram execução urgente de pendências (Foto: @yrerewafotografia / APIB)





REDAÇÃO*

A 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL) reuniu mais de 7 mil indígenas de cerca de 200 povos, de todas as regiões e biomas do país, em Brasília, ao longo de cinco dias de mobilização no começo de abril. Realizado desde 2004, o ATL é a principal mobilização de povos originários nacional e teve, em 2026, a demarcação de terras como pauta central.

Organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e mais sete organizações regionais de base, o acampamento foi marcado pela cobrança por avanços nos processos de demarcação e pela denúncia de conflitos nos territórios. A mobilização incluiu marchas, plenárias e agendas com representantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, além de articulações com embaixadas.


“Nosso apoio não é cego”

Ao final do encontro, o movimento divulgou cartas direcionadas aos três Poderes, com críticas à situação dos direitos territoriais e à falta de avanços concretos nas políticas públicas. As demandas incluem a demarcação e proteção das terras indígenas, garantia de orçamento, consulta prévia e medidas de proteção a lideranças.

Em documento dirigido ao presidente Lula Da Silva, as organizações se referem às próximas eleições nacionais no Brasil e anunciam sua posição. “A eleição de 2026 coloca o país diante de uma disputa direta entre o retorno de um projeto de morte e a continuidade de um campo democrático, onde seguimos organizados para disputar os rumos da sociedade e fortalecer a vida”, indica um trecho da nota.

Neste sentido, as organizações indígenas registraram seu apoio à reeleição de Lula na presidência do Brasil, mas, enfatizaram, “esse apoio não é cego”. Além de reconhecer uma série de avanços na promoção de direitos indígenas, como “a criação do Ministério dos Povos Indígenas ou a nomeação de lideranças indígenas na Funai”, a carta enumera diversas reivindicações que os povos originários avaliam como urgências pendentes da gestão petista.

“Esses avanços ainda não respondem à urgência do momento. A coalizão que sustenta o governo reúne setores que seguem impulsionando uma agenda anti-indígena. Isso se reflete no ritmo das demarcações e na violência nos territórios. Persistem contradições em temas estratégicos, com pressões por grandes empreendimentos e novas frentes de exploração, como o petróleo na foz do Amazonas”, demandam na nota.


Nossos direitos não se negociam

O ATL também ocorreu em um contexto de disputas institucionais sobre os direitos indígenas, incluindo os efeitos da Lei nº 14.701/2023 e decisões do Supremo Tribunal Federal sobre o marco temporal, apontadas pelo movimento como fatores de insegurança jurídica.

A tese do marco temporal promove a demarcação das Terras Indígenas que estavam ocupadas até 1988. Neste sentido, a APIB e suas organizações direcionaram uma carta ao Poder Judiciário na que manifestam “a relevância histórica do Supremo Tribunal Federal ao afastar a tese do marco temporal, reafirmando que os direitos originários dos povos indígenas não se subordinam a marcos arbitrários, mas decorrem de sua própria anterioridade e da proteção constitucional assegurada pelo artigo 231”.

Na nota asseguram que “essa decisão foi fundamental não apenas para os povos indígenas, mas para a própria integridade da Constituição, ao afirmar que a demarcação não cria direitos, apenas reconhece juridicamente direitos que são anteriores ao próprio Estado brasileiro.”

Porém, o documento lança uma crítica às tentativas de estabelecer comissões para debater conflitos: “reafirmamos, com a mesma firmeza, que os direitos originários dos povos indígenas não podem ser submetidos à lógica da negociação, da conveniência política ou da pressão econômica.”
 

Congresso como balcão de negócios

Já na missiva ao Poder Legislativo, as e os indígenas reunidos no Acampamento Terra Livre registraram críticas e pedidos para que “o Congresso Nacional deixe de servir como balcão de negócios contra os nossos direitos e passe a responder ao interesse público, à justiça constitucional e à proteção da vida”.

“O parlamento brasileiro, em vez de zelar pelo interesse público e pelo pacto constitucional, tem operado reiteradamente como plataforma de ataque aos nossos direitos, abrindo espaço para que interesses privados, corporações e setores anti-indígenas transformem nossos territórios e nossos modos de vida em objeto de barganha”, afirma a carta aos parlamentares.
 

Demarcação já!

A demarcação foi apontada como eixo estruturante das demais políticas. “A importância da demarcação das terras indígenas é central para pensar em outras políticas públicas para dentro dos territórios”, afirmou Dinamam Tuxá, coordenador executivo da APIB.

Segundo levantamento da APIB, ao menos 76 Terras Indígenas aguardam homologação presidencial e outras 34 dependem da emissão de portarias declaratórias pelo Ministério da Justiça. O movimento aponta que a demora nesses processos contribui para o aumento de invasões, conflitos e violência.

Durante o último dia do acampamento, representantes do governo anunciaram medidas como a delimitação de terras indígenas e a criação de grupos de trabalho para estudos de identificação territorial. As lideranças avaliaram que os anúncios não contemplaram regiões com conflitos recorrentes e não avançaram nas etapas finais da demarcação.

Realizado às vésperas do ciclo eleitoral de 2026, o acampamento também debateu estratégias de ampliação da representação política indígena como forma de incidência sobre políticas públicas e defesa de direitos.


* Com informações da Apib e do CIMI

 

 

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terça-feira, 21 de abril de 2026

Lula critica ação para enfraquecer os trabalhadores e pede pressão por fim da 6×1

 

CONTRA 6X1


Em encontro com centrais, presidente assina também projeto que regulamenta negociação coletiva no setor público e lembra que Temer e Bolsonaro retiraram direitos.


By Revista Consciência Redação on 20 de Abril de 2026

Ricardo Stuckert/PR

 


 
















O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu nesta quarta-feira, 15, no Palácio do Planalto, representantes das centrais sindicais. Os trabalhadores entregaram ao presidente uma pauta unificada com 68 reivindicações, que inclui a redução da jornada de trabalho sem redução salarial, valorização do salário mínimo, combate à precarização e fortalecimento da negociação coletiva. Nesta quarta (15), as centrais sindicais organizaram, em Brasília, a “Marcha da classe Trabalhadora”.

Lula enfatizou aos sindicalistas que é preciso haver mobilização e pressão dos trabalhadores para que o Congresso vote o projeto de lei que ele enviou, em regime de urgência, propondo o fim da jornada 6×1 e uma mudança na carga de trabalho vigente, que passaria de 44 horas para 40 horas semanais, sem redução de salário.

“Vocês não podem abdicar da sagrada responsabilidade de vocês de lutar pelos trabalhadores que vocês representam”, afirmou. Lula falou que o período é desafiador “Não tem tempo fácil. É sempre muito sacrifício. E cada vez que a gente manda uma coisa para aprovar no Congresso, é preciso saber que vocês têm que ajudar”, justificou.

Em seu discurso, o presidente relacionou o avanço tecnológico ao aumento da produtividade e questionou por que esses ganhos não foram convertidos em melhores condições para os trabalhadores. Lula defendeu que esse processo resulte em mais descanso, redução da jornada e melhoria na renda, reforçando a pauta defendida pelas centrais e pela Marcha da Classe Trabalhadora.

Tentativas históricas de asfixiar os trabalhadores

No encontro com sindicalistas, Lula também assinou a mensagem de encaminhamento ao Congresso Nacional do projeto de lei que regulamenta a negociação coletiva no setor público e fortalece a organização sindical de servidores e empregados públicos.

O texto estabelece regras para o direito à negociação no serviço público em todas as esferas — União, estados, municípios e Distrito Federal — abrangendo trabalhadores concursados da administração direta e autárquica. A iniciativa ocorre em um momento em que o governo busca reverter anos de ataques aos direitos trabalhistas e à estrutura sindical no país durante os governos Bolsonaro e Temer.

O presidente fez um alerta político direto sobre o cenário atual. “Os inimigos estão à espreita. Eles não desapareceram”, afirmou.

Segundo o presidente, houve uma estratégia deliberada para enfraquecer o movimento sindical. “Eles fizeram com vocês o que nós queremos fazer com o crime organizado. Se quiser acabar com o crime organizado, temos que asfixiar a economia deles. E eles trataram o movimento sindical assim: vamos asfixiá-lo”, disse.

Ele detalhou que o objetivo era retirar a capacidade de organização dos trabalhadores. “Deixá-lo sem dinheiro, para não conseguir se organizar, fazer panfleto, protesto”, completou.

Na sequência, Lula destacou a importância da mobilização atual das centrais sindicais. “O passo que vocês deram hoje é um alerta de que tem muita gente que pensa que o movimento sindical morreu”, afirmou.

O presidente também rebateu críticas sobre o financiamento das entidades e fez questão de diferenciar o modelo atual das antigas regras. “Vocês não estão sequer mais reivindicando imposto sindical. O que vocês estão defendendo é uma condição negociada no contrato coletivo de trabalho, que a categoria decida livremente: eu quero contribuir ou não quero”, disse.

Ele criticou a resistência a esse modelo e apontou desequilíbrio nas relações de força. “Nem isso eles querem permitir que vocês tenham o direito. O desejo é deixar um lado com todo o dinheiro do mundo e o outro lado sem dinheiro nenhum”, completou.

Lula também falou sobre o avanço da pejotização e defendeu reação das entidades. “As centrais sindicais têm que marcar uma reunião com o ministro Gilmar [Mendes, do STF] para dizer que a pejotização não ajuda o trabalhador, não ajuda o país, o Fundo de Garantia, a Previdência Social”, afirmou, ao questionar: “A quem interessa a pejotização?”.

A proposta enviada pelo governo regulamenta a negociação coletiva no serviço público. O projeto cria mecanismos para institucionalizar o diálogo entre governo e trabalhadores, permitindo acordos formais sobre salários, condições de trabalho e direitos. Também reforça a liberdade sindical e reconhece o papel das entidades representativas.

Enfrentar a precarização

Lula fez um resgate do que classificou como um ciclo de retirada de direitos iniciado após o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff. Ele lembrou que a reforma trabalhista aprovada no Governo Michel Temer prometeu gerar empregos, mas acabou ampliando a precarização.

Segundo o presidente, as mudanças “legalizaram o trabalho precário, a terceirização e o pagamento por hora”, sem garantir proteção a novas formas de ocupação, como o trabalho por aplicativos.

Lula também citou a extinção do Ministério do Trabalho e da Previdência e o endurecimento das regras de aposentadoria nos anos seguintes, com aumento da idade mínima e exigências mais rígidas para acesso ao benefício integral.

Quando é que um sindicalista desse país imaginou que alguém iria acabar com o Ministério do Trabalho e da Previdência Social?”, questionou.

Ele destacou ainda que houve perda de renda e de proteção social, com redução no valor de pensões e interrupção da política de valorização real do salário mínimo, que havia impulsionado o crescimento dos benefícios acima da inflação em anos anteriores.

O presidente alertou para tentativas mais recentes de aprofundar esse processo. Ao citar propostas elaboradas no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, lembrou que havia estudos com centenas de mudanças na legislação trabalhista, incluindo flexibilizações adicionais, ampliação do trabalho aos domingos e restrições ao reconhecimento de vínculo empregatício para trabalhadores de aplicativos.

É importante ninguém esquecer isso”, afirmou, ao defender que a memória desse período deve orientar o debate atual sobre direitos trabalhistas no país.

Para Lula, a reconstrução em curso passa justamente por reverter esse cenário, fortalecer a organização dos trabalhadores e retomar o papel do Estado na proteção social e na regulação das relações de trabalho.


Da Rede PT de Comunicação, publicado em 15/04/2026 20h11 - atualizado às 21h28
 
 
 

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Rádio 3.0 avança com foco em dados, vídeo e consumo híbrido

 RADIODIFUSÃO  

Setor defende que o futuro do rádio passa por nova medição de audiência, presença multiplataforma e expansão

Matéria de origem TelesinteseDa Redação : 20 de abril de 2026 | 14:26

Ilustração da internet

O futuro do Rádio 3.0 no Brasil está sendo desenhado a partir de uma mudança de conceito: o meio deixa de ser tratado apenas como transmissão linear associada ao receptor tradicional e passa a ser entendido como um ecossistema híbrido de distribuição de conteúdo, publicidade e dados. Essa foi a principal mensagem apresentada por representantes do segmento durante o SET:30, em Las Vegas, no contexto da NAB Show 2026, no fim de semana.

A avaliação exposta no encontro é que o rádio mantém relevância, mas precisa ser medido e comercializado a partir de uma lógica mais ampla, que considere o consumo em automóveis, assistentes de voz, plataformas digitais e transmissões online. A mudança afeta diretamente a leitura de audiência, o posicionamento comercial das emissoras e as estratégias de monetização.

Presidente executivo da Abert, Cristiano Flôres afirmou que o setor prepara um levantamento de dados para compreender com mais precisão o alcance atual do meio. “A evolução do rádio é sempre natural, pois vai atrás de onde estão as pessoas”, disse. Segundo ele, o mercado está “debruçado em dados fartos para traduzir pro radiodifusor e mercado onde estamos e para onde vamos”.

A mesma linha foi reforçada por Daniel Starck, diretor do tudoradio.com, ao defender que o termo rádio já não descreve sozinho toda a experiência de consumo. “Com este termo ficamos presos a um receptor, mas ele é só uma parte do ecossistema. Hoje, as pessoas entendem o rádio como carro, Alexa e etc, e mensurar isso é um desafio”, afirmou.

Os participantes também destacaram que o consumo digital já alterou a composição da audiência. Segundo os dados citados no debate, “hoje o incremento digital chega a 83%”. A leitura apresentada é que o setor precisa tratar o rádio como um meio híbrido, com presença simultânea no dial e na internet.

Essa transição também alcança a oferta de formatos. “O setor precisa cuidar também do seu streaming, porque não basta ter só um áudio bom, tem que entregar vídeo também”, afirmou Starck. A avaliação apresentada é que a ampliação da presença audiovisual pode ajudar as emissoras a sustentar relevância e criar novas frentes de receita.

Os debatedores mencionaram ainda o papel das montadoras, que vêm embarcando modelos híbridos de rádio em veículos, o que ajuda a manter o hábito de consumo e ampliar a presença do meio em diferentes momentos do dia. Nesse ambiente, o Rádio 3.0 aparece menos como uma mudança isolada de transmissão e mais como uma reorganização do modelo de distribuição e negócios do setor.

TV 3.0 segue como eixo da agenda regulatória

A TV 3.0 também permaneceu no centro das discussões do primeiro dia do encontro. Na abertura do SET:30, o ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, afirmou que o governo federal está acelerando a transição para a nova televisão digital e preparando o país para o início da implantação em 2026.

Segundo o ministro, a política pública para a DTV+ está organizada em três eixos: previsibilidade regulatória, estímulo a novos modelos de negócio e inclusão digital. “O papel do Estado é garantir um ambiente regulatório estável e previsível, que estimule investimentos e permita o desenvolvimento de novos serviços digitais”, afirmou.

De acordo com sua apresentação, a implantação será escalonada e conduzida pelas emissoras, com início das transmissões comerciais previsto para junho, durante a Copa do Mundo, no Rio de Janeiro e em São Paulo, além da continuidade de projetos-piloto, como a estação experimental de Brasília. O ministro também disse que o governo estuda mecanismos para distribuição de kits à população de baixa renda.

AWS destaca latência e resiliência no streaming esportivo

Na agenda voltada à infraestrutura de mídia, a keynote de Samira Panah Bakhtiar, general manager de mídia, entretenimento, games e esportes da AWS, apontou a próxima Copa do Mundo como um marco para a consolidação de arquiteturas de transmissão baseadas em nuvem.

Segundo a executiva, eventos esportivos ao vivo exigem operação sem falhas, distribuição em múltiplas telas, diferentes idiomas e integração com dados em tempo real. “Vamos começar pelo desafio mais fundamental: a latência”, afirmou.

A apresentação destacou que a combinação entre streaming, nuvem e interatividade amplia a exigência por resiliência operacional e baixa latência. Na leitura da AWS, esse ambiente favorece modelos mais flexíveis de transmissão e pode acelerar o uso de recursos como personalização, múltiplos ângulos de câmera e inserção dinâmica de publicidade. (Com assessoria de imprensa)

 

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domingo, 19 de abril de 2026

Massacre de Eldorado do Carajás: sobrevivente tem bala no olho há 30 anos

 

Baleado no olho durante o massacre de Eldorado do Carajás, em 17 de abril de 1996, José Carlos Agarito Moreira foi assentado e viveu da roça por 20 anos, mas deixou a terra após o agravamento das sequelas. Hoje mora na cidade, faz hemodiálise e cobra do Estado o cumprimento de decisões judiciais 

Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil | 17 de abril de 2026 | Destaque, Reforma Agrária

Zé Carlos mostra com as mãos os locais que mais doem em sua cabeça por causa da bala alojada atrás do olho direito há 30 anos. Foto: 
 

Por Daniel Camargos, do Repórter Brasil

Os dias se arrastam para José Carlos Agarito Moreira, de 48 anos. Sentado no terreiro da pequena casa onde vive, ele passa a maior parte do tempo com os pés para cima. “Fico esperando anoitecer para ir deitar”, diz, enquanto tenta esquecer a dor que atravessa a cabeça e, de vez em quando, escorre em pus pela nuca e pelo ouvido, impedindo que ele trabalhe.

“Acho que é o zinabre da bala que ficou lá dentro”, afirma, apontando para a prótese que carrega no lugar do olho direito, depois de ser atingido por um tiro disparado por um policial militar. Ao lado de um papagaio, ele observa o pequeno movimento da rua em um bairro de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, e quase não se levanta. A rotina só muda três vezes por semana, quando sai para fazer hemodiálise.

Há três décadas, Zé Carlos foi baleado na Curva do S, em Eldorado do Carajás, o maior massacre da história recente do campo brasileiro. Em 17 de abril de 1996, policiais militares abriram fogo contra um grupo do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) que bloqueavam a rodovia PA-150, durante um protesto em defesa da reforma agrária.

Na hora, 19 pessoas foram assassinadas e dezenas ficaram feridas. Outros dois trabalhadores morreram dias depois, vítimas dos disparos. Na Justiça, apenas os dois comandantes da operação foram condenados por homicídio.

Na semana que marca os 30 anos do massacre, o MST organiza uma marcha de cinco dias entre Curionópolis e Eldorado do Carajás, com atos políticos, debates e atividades culturais ao longo do percurso. A mobilização termina na Curva do S, onde será realizado um ato em memória das vítimas e em defesa da reforma agrária.

Na época do massacre, Zé Carlos tinha 18 anos e havia chegado poucos dias antes ao acampamento onde estavam seus pais, na fazenda Macaxeira. A família migrou do Maranhão para o sudeste do Pará quando ele ainda era criança, atraída pela corrida em direção à Serra Pelada. O ouro não veio, e eles passaram a trabalhar em fazendas da região, sem acesso à própria terra.

Zé Carlos foi visitar os pais no acampamento e acabou ficando. Cerca de dez dias depois, já estava entre os trabalhadores que marchavam pela rodovia em direção a Marabá, pressionando o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) pela desapropriação da Macaxeira. No fim da tarde daquele 17 de abril, a Polícia Militar cercou a estrada pelos dois lados e avançou para desobstruir o bloqueio.

No início, ele pensou se tratar de bombas de efeito moral. A impressão mudou quando viu um companheiro cair. “Mataram primeiro o Amâncio, o Surdinho”, diz Zé Carlos. Conhecido pelo apelido por ter deficiência auditiva, Amâncio dos Santos Silva avançou na direção dos policiais sem compreender o que ocorria e foi baleado.

A partir dali, os trabalhadores perceberam que não se tratava de dispersão, mas de tiros com munição letal. Zé Carlos tentou sair da linha de fogo, mas não conseguiu. “O policial apontou na minha cara. Na testa. Pra matar”, lembra. A bala entrou pelo olho direito e ele caiu: “Na hora não dói. Ela pesa demais e você cai”.

Ele conta que, apesar de ferido, ainda conseguiu se levantar com ajuda de outros trabalhadores e começou a caminhar, sem compreender a gravidade do ferimento: “Esse olho aqui não é mais meu”. A bala ficou alojada e nunca foi retirada.

Zé Carlos afirma que já teve acompanhamento médico regular, determinado pela Justiça, mas que o tratamento foi interrompido. Hoje tenta retomar o atendimento com o apoio de um advogado e da associação de sobreviventes. “A gente tá correndo atrás pra ver se consegue de novo”, diz.

Segundo Maurílio da Silva Soares, que preside a associação das vítimas, o caso de Zé Carlos não é isolado. Ele afirma que dezenas de sobreviventes seguem com sequelas graves e sem acesso regular ao atendimento previsto em decisões judiciais e acordos firmados com o Estado do Pará desde o fim dos anos 1990.

“O massacre não acabou. Ele continua na vida dessas pessoas”, diz Soares. Segundo a associação, entre os 69 trabalhadores feridos, ao menos 25 ainda aguardam indenização e relatam dificuldades para manter tratamento médico.

Procurada, a Sespa (Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará) afirmou que aguarda a formalização das demandas por parte dos representantes dos sobreviventes para dar continuidade aos trâmites administrativos dentro do SUS (Sistema Único de Saúde). Segundo a pasta, apesar de solicitações anteriores, os documentos necessários ainda não foram encaminhados.

A secretaria não informou quantos sobreviventes são atendidos hoje nem explicou como funciona o acompanhamento médico.

“Todos os sobreviventes estão sem assistência médica. O Zé Carlos é o caso mais grave. Mas todos estão na fila do SUS como qualquer outra pessoa”, afirma Soares, presidente da associação. “No nosso caso foi o governo que provocou as sequelas. Então, o governo tem que dar uma atenção especial. Nossos sobreviventes estão morrendo por falta de assistência médica”, complementa.

Já a PGE (Procuradoria-Geral do Estado) declarou que o Pará cumpre as obrigações assumidas junto à União no âmbito do Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Sobre as decisões judiciais, afirmou que “todas foram cumpridas e liquidadas”.


Pará é líder em violência no campo

Soares também foi ferido no dia do massacre. Conhecido no movimento como Márcio Lima, passou a usar o codinome nos primeiros anos de organização do MST no sudeste do Pará, no início da década de 1990, em um contexto de violência brutal no campo.

Levantamento baseado em dados da CPT (Comissão Pastoral da Terra) indica que o Pará registrou 1.003 assassinatos no campo entre 1980 e 2024, mais do que qualquer outro estado — quase 75% dos casos estão concentrados no sul e sudeste paraenses. Os dados constam do livro Assassinatos e Impunidade no Campo no Pará: 1980 a 2024 (Editora Dialética), de José Batista Gonçalves Afonso e Airton dos Reis Pereira.

Esse padrão de violência se intensificou após a repressão da ditadura militar à Guerrilha do Araguaia, organizada pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil) na década de 1970, e marcou a relação entre trabalhadores rurais, grandes proprietários e forças de segurança na região.

No dia do massacre, Soares foi atingido por estilhaços e por uma coronhada de fuzil que lesionou seu braço esquerdo. Afastado da direção do MST desde 2002, afirma que assumiu a presidência da associação dos mutilados com o objetivo de fortalecer a cobrança por direitos.

Soares vive em uma chácara na periferia de Parauapebas, onde planta hortaliças em pequena escala e realiza trabalhos eventuais como servente de pedreiro. Já não possui o lote que recebeu após o massacre.

“Os sobreviventes nunca deixaram de cobrar”, afirma Poliana Soares, da coordenação nacional do setor de direitos humanos do MST. Segundo ela, ao longo dos anos essa pressão foi mantida pelos próprios atingidos e voltou a ganhar apoio direto do movimento diante da persistência das violações. A atuação hoje inclui articulação política, audiências públicas e a tentativa de pressionar o Estado a cumprir as obrigações assumidas com os feridos — principalmente, indenizações e tratamento médico.

O caso foi apresentado à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) em 1996 pelo MST e pelo Centro pela Justiça e o Direito Internacional, apontando a responsabilidade do Estado brasileiro pelas mortes, pelos ferimentos e pelas falhas na investigação e punição dos responsáveis. Em 2003, a CIDH declarou a petição admissível. A tramitação segue há décadas, ainda sem decisão final.

Dos 144 policiais denunciados, 142 foram absolvidos, e apenas os comandantes da operação, o coronel Mário Colares Pantoja e o major José Maria Oliveira, foram condenados por homicídio.


A terra que não pôde sustentar

Zé Carlos foi assentado no Projeto de Assentamento 17 de Abril, criado na antiga fazenda Macaxeira, menos de um ano após o massacre. Ficou lá por cerca de 20 anos, plantando e criando os filhos. Porém, as dores provocadas pela bala foram se intensificando. “Tinha dia que eu não aguentava. Tinha dia que eu desmaiava”, diz. Sem conseguir manter o trabalho, vendeu o lote e se mudou para Eldorado do Carajás em busca de tratamento médico.

Passou a fazer hemodiálise em Marabá, em viagens que consumiam o dia inteiro. Saía de madrugada e voltava à noite, passando pela mesma estrada onde havia sido baleado. Mais tarde, vendeu também a casa em Eldorado e se mudou para Canaã dos Carajás, em busca de tratamento com deslocamento menor.

Hoje vive com a esposa em uma casa de madeira, com um quarto, sala e cozinha. A renda da indenização é consumida por empréstimos consignados para as despesas médicas. Restam cerca de R$ 500 por mês. Depende da ajuda dos dois filhos para poder comer.

Mesmo assim, Zé Carlos diz que a luta pela terra valeu. Lembra do que conseguiu produzir no assentamento e do que aquilo representou para a família. “A reforma agrária, pra mim, é luta, é conquista, pra gente conquistar uma terra, trabalhar e comer”, afirma. “Se não fosse a reforma agrária, tu acha que a gente tinha terra? Não tinha”.

Entende, porém, que a violência e as sequelas mudaram tudo. “Hoje eu estou desse jeito, com a bala na cabeça, não posso trabalhar”, afirma. Também não guarda mágoa de quem atirou: “Se eu encontrasse o policial, eu chamava ele pra comer uma galinha caipira mais eu. Porque pelo menos ele me deixou vivo”, complementa.

Sem conseguir trabalhar e sem a terra que conquistou, Zé Carlos passa os dias sentado do lado de fora de casa, à espera do cair da noite, para deitar.


Edição: Carlos Juliano Barros



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