sábado, 18 de julho de 2026

Senado reduz Floresta do Jamanxim e abre caminho para mais desmatamento no Pará

 

 MEIO AMBIENTE 


Projeto aprovado prevê redução de 40% no território da FLONA; autoridades e ambientalistas alertam sobre avanço do garimpo e grilagem.

 

Boletim do clima 17 de julho de 2026
Área desmatada para produção agropecuária dentro da FLONA do Jamanxim. Crédito: Daniel Beltrá/Greenpeace


 

A atual legislatura do Congresso Nacional já garantiu seu lugar nos anais como a mais antiambientalista da História brasileira. Mas o triste título não diminui a fome de devastação dos “nobres” parlamentares, que parece aumentar com a proximidade do recesso de meio de ano no Congresso. Assim, em mais um golpe contra a proteção ambiental, o Senado aprovou na 4ª feira (15/7) um projeto de lei que reduz em 40% a Floresta Nacional (FLONA) do Jamanxim, no Pará.

De autoria do deputado Ismael Bulhões Jr. (MDB/AL), o PL nº 2.486/2026 faz parte da “boiada” de projetos antiambientais aprovados pela Câmara em maio, durante a infame “Semana do Agro”. No Senado, um requerimento de urgência proposto pelo relator, senador Jader Barbalho (MDB/PA) garantiu tramitação acelerada na casa, com votação direta no plenário, sem passar pelas comissões temáticas. A aprovação foi feita de forma simbólica, em poucos minutos, sem contagem nominal de votos.

A proposta retira do Jamanxim 486 mil hectares, que passam a compor uma Área de Proteção Ambiental (APA). Uma APA é bem menos restritiva que uma FLONA, permitindo atividades produtivas, com planos de manejo.

Os defensores justificam que o projeto permitirá reduzir a “insegurança jurídica” da região. Traduzindo: vai facilitar a regularização fundiária de propriedades ilegais dentro do território atual da floresta. Para piorar, o PL também tem um dispositivo que permite a realização de “atividades minerárias” (leia-se garimpo) dentro da nova APA.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) criticou as alterações. “A mudança amplia as possibilidades de uso e de exploração econômica da área, inclusive de atividades incompatíveis com uma FLONA, e pode intensificar as pressões relacionadas ao desmatamento, à grilagem de terras públicas, à exploração ilegal de madeira e à perda de vegetação nativa da Amazônia”, destacou a pasta.

A Folha lembra que o projeto se insere em uma mobilização mais ampla dos parlamentares, capitaneados pela bancada ruralista, em prol de temas que interessam ao agronegócio. Entre eles, um projeto que permite ao Ministério da Agricultura vetar a classificação de espécies em risco de extinção.

“O Congresso assumiu como foco, nos últimos meses, a flexibilização, ou mesmo eliminação, das áreas ambientalmente protegidas. O produto de hoje foi a Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, que será reduzida para beneficiar a grilagem e o garimpo. Um tratorado sem o devido debate, que tem acontecido com frequência na pauta antiambiental”, lamenta Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, n’O Globo.

O projeto de lei segue agora para o Palácio do Planalto, onde o presidente Lula poderá sancioná-lo ou vetá-lo, integral ou parcialmente. Considerando votações passadas, mesmo que haja veto, é muito provável que o Legislativo consiga derrubá-lo. De toda forma, por conta do calendário eleitoral, é muito provável que a questão seja avaliada apenas depois das eleições.

Bom Dia Brasil, Estadão, g1, Pará Terra Boa e VEJA, entre outros, também repercutiram a notícia.

 

Nove em cada 10 municípios brasileiros já sofreram com desastres hídricos 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Canaã dos Carajás: Edital Casa da Cultura Apoia 2026 vai premiar mestres e grupos da cultura popular no Pará e Maranhão

 
CULTURA
 

Em sua 6ª edição, iniciativa do Instituto Cultural Vale vai selecionar 40 realizadores em cada estado com prêmios de R$ 10 mil; no ano passado, o edital registrou 548 inscrições.

Blog do Zé Dudu | Publicado em 15/07/2026 | às 11:07 | Canaã dos Carajás 




Das mãos que moldam o barro e tecem o fuxico às vozes que ecoam nos festejos tradicionais, as diversas manifestações da cultura popular amazônica ganham um reforço de peso. É que o Instituto Cultural Vale (ICV) abriu as inscrições para a 6ª edição do Edital Apoia. Realizado de forma conjunta pelo Centro Cultural Vale Maranhão (CCVM) e pela Casa da Cultura de Canaã dos Carajás (CCCC/PA), o projeto vai selecionar e premiar 40 fazedores de cultura em cada estado, destinando o valor de R$ 10 mil para cada selecionado.

O objetivo central do Edital Apoia é valorizar, reconhecer e criar caminhos para a sustentabilidade das culturas populares e comunitárias em sua diversidade de linguagens, como música, dança, artesanato, expressões cênicas, festejos e celebrações. Mais do que um auxílio financeiro, a premiação funciona como um reconhecimento institucional histórico a artistas, produtores, grupos e, especialmente, aos “detentores” do patrimônio cultural: comunidades e coletividades que guardam a memória e são responsáveis por transmitir os saberes tradicionais para as próximas gerações. 

Ao longo de seis anos de história, o edital tem descentralizado o acesso aos recursos, alcançando povoados, municípios do interior e periferias das capitais. O sucesso da iniciativa se reflete nos números: na edição passada, o Edital Apoia alcançou a marca histórica de 548 inscritos, consolidando-se como uma importante ferramenta de salvaguarda do patrimônio imaterial no Pará e no Maranhão.

Vozes do território 

Quem já passou pela experiência reforça o impacto da premiação na ponta, onde a cultura acontece. É o caso de Marineide Juruna, de Vitória do Xingu (PA), uma das mestras contempladas no ano passado. Moradora da zona rural, ela explica que o edital atua como um farol de esperança em uma região de logística complexa e fortemente impactada por transformações ambientais.

“Esses editais ajudam nas nossas condições emocionais, dão esperança e fazem com que a gente tenha fé que existe um mundo melhor. Moramos distante, nossa logística envolve água e estrada, o que é muito difícil. Diante dos impactos ambientais que sofremos, o prêmio nos dá condições de circular nossa atividade e repassar o conhecimento ancestral para a juventude”, afirma Marineide.

Além do fomento financeiro, a mestra ressalta o papel do edital na emancipação de mulheres que guardam saberes tradicionais, mas que muitas vezes enfrentam barreiras formais para acessar incentivos públicos. “Acho de grande importância na vida das mulheres. Muitas das que são mais beneficiadas não tiveram a oportunidade de estudar, mas possuem a arte e o conhecimento na alma. Por isso, quanto menos burocracia esses processos tiverem, mais conseguiremos valorizar quem realmente mantém viva a nossa ancestralidade”, defende.

Estruturando os terreiros da memória

A preservação da cultura popular também passa pela estruturação física dos espaços onde a tradição resiste. Para Letícia Terra, presidente do coletivo Boi da Terra, grupo localizado no bairro da Terra Firme, em Belém, também contemplado na edição anterior, o prêmio foi o divisor de águas que permitiu ao grupo melhorar sua infraestrutura e expandir o atendimento à comunidade.

“Nós conseguimos utilizar a premiação para melhorar a nossa sede, que é o curral do Boi da Terra. Realizamos adaptações necessárias para receber melhor o público e conseguimos ampliar nossas ações socioculturais, promovendo oficinas que fortalecem e mantêm viva a nossa tradição de fato”, conta Letícia.

Além do impacto direto nas atividades, ela destaca a transparência e o compromisso da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás na condução do processo, o que fortalece a relação de confiança com quem está na ponta produzindo arte.

“Essas políticas de incentivo executadas com responsabilidade dão segurança para os fazedores de cultura. Esse tipo de iniciativa e valorização é essencial para que a cultura popular continue existindo, se renovando e alcançando cada vez mais pessoas”, conclui.

Parceria, escuta e expectativas para 2026

Para a direção da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás, o edital reafirma o compromisso dos espaços de cultura em ouvir e abraçar o território real. “Acreditamos que investir na cultura popular é investir nas pessoas, nas histórias e nos modos de vida que tornam o Pará único. O Edital Apoia é uma oportunidade de reconhecer quem mantém essas tradições vivas, ao mesmo tempo em que impulsiona novas possibilidades de criação, circulação e sustentabilidade para artistas, mestres e grupos culturais do nosso estado”, ressalta Gabriela Sobral Feitosa, diretora da Casa da Cultura. 

Gabriel Gutierrez, diretor do Centro Cultural Vale Maranhã (CCVM), lembra que é o sétimo ano em que a instituição entrega um prêmio de reconhecimento aos detentores da cultura popular. “Sabemos que a cultura, em seu estado original, é fruto das relações cotidianas daqueles que pelo trabalho do pensamento e do corpo transformam a realidade. O edital ainda é uma forma de promover a salvaguarda ativa das expressões populares, acompanhando os movimentos de uma cultura viva”.

Inscrições

Podem se inscrever artistas individuais (pessoa física) ou representantes de grupos e coletivos culturais. Cada um dos realizadores responsáveis (CCVM e Casa da Cultura de Canaã dos Carajás) disponibilizará um limite bruto de R$ 400 mil, totalizando R$ 800 mil investidos diretamente na cultura popular dos dois estados.

As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas exclusivamente de forma online, através do site oficial da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás, entre os dias 13 de julho e 14 de agosto de 2026. O resultado final com os 80 premiados (40 do Pará e 40 do Maranhão) será divulgado no dia 28 de setembro de 2026.

CRONOGRAMA EDITAL ICV APOIA 2026

  • Período de Inscrições: até 14/08/2026
  • Onde se inscrever: no site da Casa da Cultura de Canaã dos Carajás
  • Quem pode participar: artistas, produtores, detentores, grupos e fazedores da cultura popular e comunitária do Pará e do Maranhão.
  • Premiação: 40 prêmios de R$ 10.000,00 por estado (Pará e Maranhão).
  • Resultado: 28 de setembro de 2026.

(Texto: Natália Mello)


 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Dez motivos para proibir as bets

 

 
By Redação on 12 de Julho de 2026
Paul Cézanne - Os jogadores de cartas
 
 
Os números no Brasil não mentem: estamos presenciando um cataclismo social, sob o olhar cúmplice das autoridades dos três poderes.

Dez motivos para proibir as bets


O “legado” da Copa 2026 para o Brasil é uma legião de novos viciados em apostas.

 

Entre as medidas podem ser tomadas em favor do povo brasileiro, a proibição das apostas online é a mais óbvia e a mais simples de ser formulada e executada.

Paul Cézanne - Os jogadores de carta Os números no Brasil não mentem: estamos presenciando um cataclismo social, sob o olhar cúmplice das autoridades dos três poderes.
 

1) Não existe jogo responsável

O jogo vicia – da mesma maneira que uma droga qualquer, ele mexe na química do cérebro, gera compulsão. A estratégia das bets é ampliar o número de viciados. Por isso, tantos chamarizes para alcançar novos jogadores, com a perspectiva de que alguns deles ficarão enredados. Dão bônus para primeiras apostas, criam clubes de fidelidade (!). Depois colocam aquele aviso hipócrita, “jogue com responsabilidade”. Mas o vício não é um efeito colateral, é o objetivo das bets.

O viciado em jogo em geral não vaga pelas ruas como um zumbi, feito um viciado em crack. Mas o vício no jogo destrói vidas do mesmo jeito. A compulsão interfere na vida familiar e afetiva, nas amizades, no trabalho, na educação. Os gastos com apostas erodem o orçamento familiar, fazem com que despesas básicas sejam deixadas de lado. Os números no Brasil não mentem: estamos presenciando um cataclismo social, sob o olhar cúmplice das autoridades dos três poderes.

2) As bets são piores que outros jogos de azar

Existem duas teorias principais sobre loterias. Uma diz que é uma forma de imposto que o governo cobra sobre a estupidez das pessoas. Outra, que vende um serviço. Eu pago 6 reais e ganho o direito de passar uma semana sonhando que sou milionário.

O ponto é esse: o prêmio que eu posso ganhar na megasena não depende do quanto gastei apostando. Posso ganhar o prêmio principal acumulado com uma aposta simples. Se é para sonhar com ficar rico, bastam esses 6 reais.

Já as bets remuneram os eventuais ganhadores como uma proporção do valor gasto. Para ganhar muito dinheiro, é necessário também arriscar muito dinheiro.

É o mesmo sistema dos cassinos. Só que para ir a um cassino existe um custo, é necessário o deslocamento. Quando a pessoa passa muito tempo em volta do pano verde os outros logo percebem e ela mesma precisa reconhecer está com um problema. Já as bets estão na palma da mão, em todos os lugares, em todos os momentos. Bastam alguns cliques discretos e, até que o desastre aconteça, parece que tudo está bem.

   3) As bets são uma armadilha para os desesperados

As bets viciam, levando ao comportamento compulsivo de apostadores que precisam daquela descarga de adrenalina, com frequência cada vez maior. Mas atraem também uma camada de desesperados, gente que precisa se iludir acreditando que existe uma maneira mágica de fazer dinheiro.

A mágica funciona – mas só para donos das bets e influenciadores picaretas, é claro. O apostador apenas piora a sua situação e é levado a mergulhar mais fundo no desespero. Endividados em desespero veem as apostas como única esperança e se endividam ainda mais apostando: um círculo vicioso infernal.

   4) Não é paternalismo, é solidariedade

O argumento liberal padrão para defender as bets é que apostar ou não apostar é uma decisão livre. Proibir seria uma forma de paternalismo, nociva ao valor da autonomia dos indivíduos. É o argumento esgrimido contra qualquer intervenção pública contrária a formas de exploração das pessoas. Por isso, não se pode proibir propaganda de cigarro, impedir a venda de refrigerante nas cantinas de escola, nada disso.

Existem três falhas neste argumento, qualquer uma delas suficiente para invalidá-lo. A primeira é que parece que cada um desses comportamentos – jogar, fumar, se envenenar com refrigerantes – surge “naturalmente”, logo as restrições seriam uma maneira de impedir a efetivação de inclinações inatas. Assim, os estímulos produzidos pelo mercado, em particular pela publicidade, são naturalizados, e a proteção contra eles é estigmatizada como autoritária.

A segunda é a ideia de que as escolhas das pessoas podem ser entendidas de forma independente das circunstâncias que elas vivem. É o tipo do raciocínio que justifica, para liberais mais extremados, o comércio de órgãos. Afinal, se o rim é meu e eu quero vendê-lo, por que alguém haverá de me impedir? As circunstâncias que me fazem querer vender um rim não importam. Mas o desespero que leva pessoas arriscarem nas bets até o que não têm ou os mecanismos do vício que geram a compulsão por apostar fragilizam profundamente estas pessoas diante dos estímulos apresentados pelas empresas. Raciocinar como se isso não fosse um fator determinante é negar a realidade.

Uma cena premonitória do clássico O sentido da vida, de Monty Python (1983).
 
A terceira falha tem um caráter mais geral. A noção de autonomia e de responsabilização individuais adotadas por versões extremadas do liberalismo afasta de nosso horizonte qualquer forma de solidariedade. Se o sujeito está viciado, se perdeu tudo que tinha, é problema dele: a sociedade não pode e não deve agir para socorrê-lo ou para prevenir este desfecho. É um mundo horrível, um mundo que os dominantes se esforçam para construir, mas contra o qual nossa humanidade resiste.

   5) Bets não geram empregos e não impulsionam a economia

Quando se defendia a liberação dos cassinos no Brasil, o grande argumento era a geração de empregos. De fato, cassinos exigem um investimento inicial no espaço físico e depois, de forma permanente, precisam de crupiês, garçons, leões de chácara, faxineiros. E também, em paralelo, o pessoal da hotelaria, do entretenimento, sem contar o ramo oculto, mas expressivo, de profissionais de sexo e de drug dealers, tudo aquilo que a gente vê nos filmes sobre Las Vegas. Não acho que seja um bom argumento, mas é um argumento.

Nada disso ocorre com as bets. É uma atividade econômica predatória, que não produz nada, que não entrega nada a seus clientes e que praticamente não gera postos de trabalho. Ninguém ganha com elas, a não ser seus proprietários e seus garotos-propaganda, um punhado de influenciadores pilantras, sejam jogadores de futebol ou não, dispostos a lucrar com a desgraça alheia.

   6) Apostas são um veículo para a lavagem de dinheiro

Fernandin OIG, que opera o jogo do tigrinho no Brasil, é talvez o rosto mais conhecido das bets por aqui. Seu nome aparece com frequência no noticiário, ao lado de vultos da República como o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Mota. É amigão também de Kássio Nunes Marques, ministro do STF.
Está mais que provado: um jatinho é a melhor forma de fazer amigos e influenciar pessoas.

Deve ser difícil para os jornais definir em que editoria enquadrar essas notícias. Na economia, porque são os interesses empresariais que estão em jogo, ou na política, porque os contatos servem para mexer em projetos em tramitação no Congresso, ou no colunismo social, porque em geral envolvem passeios em praias paradisíacas (pela natureza, mas também fiscalmente paradisíacas) e festas de arromba. Ou talvez, pela natureza dos negócios, o lugar certo seja o noticiário policial.

Dois anos atrás, isto é, quando o boom das bets ainda engatinhava no Brasil, as transações de Fernandin OIG suspeitas de lavagem de dinheiro já somavam mais de 100 milhões de reais.

Pela falta de transparência, dificuldade de controle e pretensa aleatoriedade dos resultados, apostas são um dos melhores meios de lavar dinheiro. Não é à toa que Las Vegas foi um projeto da Máfia. A proximidade das bets com o crime organizado e com a elite política corrupta não é um acaso.

   7) As bets afetam a sociabilidade

As empresas de apostas online poluem a esfera pública, com sua publicidade onipresente. Como regra, aliás, quanto mais publicidade, pior é o produto. Uma velha boutade diz que manteiga não faz propaganda, porque todo mundo sabe que é bom, enquanto a margarina…

O impacto da internet e, em particular, das mídias sociais nos padrões de sociabilidade humana é, como todos constatamos, desastroso. A promessa da conexão online se traduziu na realidade de uma desconexão crescente entre as pessoas, reduzindo as trocas interpessoais a reações predeterminados pelas plataformas, estimulando a emulação permanente, a competição, o individualismo.

As apostas acrescentam uma nova camada neste cenário. A esperança de um ganho financeiro ilusório invade cada momento da vida. Os dados mostram que as bets capturaram mais de um terço dos brasileiros durante os jogos da Copa, triplicando o número de clientes. Ou seja, até a alegria de assistir ao futebol e torcer por uma equipe é capturada e desvirtuada.
8) As bets alienam

O sujeito desesperado que “investe” numa aposta como última alternativa para ganhar o dinheiro de que precisa não é burro: é desesperado.

A melhor chance de mudar sua vida é por meio da transformação da sociedade, mas o processo é lento e, sobretudo, desestimulado por todas as estruturas de dominação vigentes. O discurso meritocrático diz que ele pode chegar lá com esforço, engenhosidade e sacrifício, mas o mundo mostra todos os dias que não é assim. Então sobra a sorte.

Pior: as bets são capazes de unir acaso e “meritocracia”. A maior parte do dinheiro do público escoa por meio de jogos tipo caça-níquel, como o Tigrinho. As apostas esportivas. que nem por isso são insignificantes (e que muitas vezes servem de porta de entrada para o vício) mobilizam a ideia, obviamente falsa, de que o apostador seria recompensado por sua expertise.
Inteligente?

 
O material publicitário do site Metrópoles é claro: aposte “de forma inteligente e estratégica”. Os infames incentivos aos apostadores na Cazé TV apontam na mesma direção.Inteligente?

Mas, na verdade, agir de forma inteligente e estratégica não é encontrar uma “odd” pretensamente favorável, é lutar pelo fim do capitalismo.

Em campanhas dirigidas sobretudo ao público evangélico, as empresas usam o verbo “profetizar”, dando um caráter de eleição divina ao sucesso improvável na aposta. Afinal, a teologia da prosperidade neopentecostal opera uma curiosa tradução do discurso meritocrático, em que o metro é a fé, o fervor religioso. Deus dá mais a quem mais acredita – e demonstra acreditar dando tudo o que tem. Vale para o dízimo, vale para as bets.

   9) A conta não fecha

Temer liberou, Bolsonaro incentivou, Lula regularizou. O grande argumento a favor da legalização das apostas no Brasil é arrecadação de impostos.

Segundo cálculos, o governo federal recebeu algo como 4,5 bilhões de reais de impostos das bets no primeiro quadrimestre de 2016. Com a Copa, esses valores certamente aumentam muito.

Mas será que vale a pena? Será que a destruição das famílias, a evasão escolar, o desvio do dinheiro que seria usado para o consumo e assim alimentaria as atividades produtivas, a deterioração da saúde mental, os suicídios, tudo isso é compensado por esses impostos arrecadados?

Mesmo no cálculo econômico mais rasteiro, a conta não fecha. Segundo estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, a cada real arrecadado em tributos, as apostas online causam a perda de cinco ou seis reais em atendimento de saúde e perda de produtividade.

Cazuza dizia que “transformam o país inteiro num puteiro/pois assim se ganha mais dinheiro”. Estão transformando-o em um grande cassino. Era fácil vaticinar e agora é mais fácil ainda comprovar a partir da experiência: este é o caminho para o desastre.
 
10) Proibir as bets é possível

O último argumento que sempre aparece na discussão é que é “impossível” impedir as apostas online. É melhor legalizá-las e arrecadar os tais impostos do que deixá-las na clandestinidade.

Na verdade, não é assim. É possível bloquear o acesso aos sites de apostas – como se bloqueou, por exemplo, o Twitter. É possível bloquear as transações financeiras com as empresas. É possível responsabilizar as big techs e, com isso, eliminar a publicidade das bets.

Capacidade técnica existe. É necessária apenas à vontade política.

É claro que ainda seria possível buscar meios para apostar, burlando os controles, usando VPNs, coisas assim. Mas seria uma minoria bastante pequena que se daria a este trabalho. O investimento multimilionário das bets em publicidade mostra que é preciso incentivo e disponibilidade para que a maior parte dos apostadores seja fisgada.

Com a proibição, passaríamos de um problema que afeta dezenas de milhões de brasileiros para outro que se conta na casa das dezenas de milhares. Não é uma decisão difícil.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).

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Por Luis Felipe Miguel / Jornal GGN, 08/07/26 • 13:16

 

 

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