POLICIA
Operação Integration tem 53 alvos entre empresários, bicheiros e a influenciadora Deolane Bezerra.
Matéria da Agenda do Poder | Escrito por Gustavo Kaye | Polícia | 30 de setembro de 2024 – 04:48
O cantor Gusttavo Lima foi indiciado por lavagem de dinheiro e organização criminosa. O Fantástico teve acesso à investigação completa e as informações abaixo foram exibidas na edição deste domingo, 29, como exclusivas.
Segundo a reportagem, a medida foi adotada pela Polícia Civil de
Pernambuco na Operação Integration, que tem ao todo 53 alvos em seis
estados brasileiros. Entre eles, estão bicheiros, empresário e a
influenciadora digital Deolane Bezerra, além do cantor.
O indiciamento aconteceu em 15 de setembro. Agora, cabe ao Ministério
Público decidir se denuncia ou não Gusttavo Lima à Justiça.
A defesa do cantor nega irregularidades.
Dinheiro vivo e R$ 8 milhões em notas sequenciais
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Dinheiro vivo encontrado em cofre da Balada Eventos, empresa de shows do cantor Gusttavo Lima. — Foto: Reprodução |
A polícia apreendeu R$ 150 mil na sede da Balada Eventos e Produções, empresa de shows de Gusttavo Lima em Goiânia (GO).
Também encontrou 18 notas fiscais sequenciais, emitidas no mesmo dia e
em valores fracionados por outra empresa do cantor, a GSA
Empreendimentos, para a PIX365 Soluções (Vai de Bet, de acordo com a
polícia), também investigada no esquema.
São mais de R$ 8 milhões pelo uso de imagem e voz do cantor.
O dinheiro vivo apreendido e as notas fiscais são, segundo a polícia, dois indícios de lavagem de dinheiro.
O advogado criminalista Rodrigo Andrade Martini explica o que é esse
crime. “A lavagem de dinheiro ocorre quando a pessoa, a partir de um
crime, ela recebe dinheiro, bens, valores ilícitos. Essa pessoa
necessariamente precisa inserir na sua contabilidade”, afirma.
O processo para dar aparência legal a dinheiro criminoso geralmente
envolve “a compra, portanto, fictícia de bens móveis ou imóveis, a
prestação de serviços de uma maneira maquiada ou a compra sequencial de
imóveis e emissão de notas fictícias”, diz ele.
Martini diz que precisa ficar claro se Gusttavo Lima sabia ou não que
o dinheiro usado em todas as transações investigadas era de origem
criminosa.
“A pessoa que não tem conhecimento da estrutura de lavagem de
dinheiro, ela não pode ser punida pelo crime”, diz Martini. “Tendo
conhecimento, eles devem, sim, ser investigados e punidos com rigor da
lei.”
Aeronave foi vendida 2 vezes para investigados
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Um dos aviões da Balada Eventos foi vendido duas vezes para
investigados na operação que indiciou Gusttavo Lima — Foto: Reprodução |
Novos detalhes da investigação revelam que uma delas, um avião da
Balada Eventos, foi vendida duas vezes (em um ano) para investigados na
operação.
A primeira venda aconteceu em 2023. Por US$ 6 milhões, o avião foi
vendido para a Sports Entretenimento, que pertence a Darwin Henrique da
Silva Filho, que, segundo a polícia, é de uma família de bicheiros do
Recife.
O pernambucano ficou com o avião durante dois meses. Logo depois, se desfez da aeronave, alegando problemas técnicos.
A investigação mostra que o contrato e o distrato foram emitidos no
mesmo dia, 25 de maio de 2023. E que o laudo — que apontou a falha
mecânica — foi feito depois do cancelamento da compra, dia 29 de junho
do mesmo ano.
Em fevereiro de 2024, aconteceu a segunda venda: a Balada Eventos,
de Gusttavo Lima, vendeu esse mesmo avião — dessa vez, para a empresa
J.M.J Participações, do empresário José André da Rocha Neto, que também é
alvo da operação. A venda aconteceu, segundo a polícia, sem nenhum
laudo que comprovasse o reparo no avião. A transação de R$ 33
milhões envolveu ainda um helicóptero que também era da empresa
de Gusttavo Lima e já tinha sido comprado por outra empresa de André
Rocha Neto.
Na negociação, o helicóptero voltou para o cantor. A investigação
aponta que as empresas que compraram as aeronaves usaram tanto dinheiro
legal quanto dinheiro ilegal, vindo do crime.
De acordo com o inquérito, o esquema funcionava assim:
- O dinheiro do jogo do bicho, de jogos de azar e de bets legalizadas iam todos para um mesmo caixa
- Lá, os valores lícitos eram misturados aos do crime
- Para dar aparência legal e voltar ao mercado limpo, o dinheiro
contaminado, segundo a polícia, foi usado na negociação das aeronaves.
“É uma forma de lavagem, transitar o dinheiro através de várias
pessoas físicas ou jurídicas, buscando não facilitar o rastreamento
deles”, diz Renato Rocha, delegado geral da Polícia de Pernambuco.
Esquema do qual Gusttavo Lima é suspeito, segundo investigação da polícia civil de Pernambuco — Foto: Reprodução
Investigada gastou R$ 2,4 milhões em dinheiro em 2 lojas de grife
José André da Rocha Neto – dono da empresa que comprou o avião
de Gusttavo Lima pela 2ª vez – e a mulher dele, Aissla, são empresários
da Paraíba e investigados na operação.
Os dois tem uma incompatibilidade entre o rendimento declarado à
Receita Federal e a quantia que eles movimentaram nos últimos anos.
Conforme a polícia, em três anos, Aislla chegou a gastar R$ 2,4
milhões em dinheiro vivo — só em duas lojas de grife. Um dos acessórios
que ela exibe nas redes sociais é uma minibolsa, que custou R$ 116 mil.
O casal José e Aissla tem muitas empresas — e três são investigadas por lavagem de dinheiro. Elas são:
- J.M.J Participações, a mesma que comprou o avião da empresa do Gusttavo Lima
- Supreme Marketing e Publicidade, que comprou o helicóptero do cantor
- PIX365 Soluções, empresa que, segundo a polícia, é a Vai de Bet, e tem Gusttavo Lima como garoto-propaganda.
No dia da operação, investigados e cantor estavam na Grécia
No dia em que a operação foi deflagrada, no começo de setembro, o
cantor foi intimado a depor. Rocha Neto e a mulher estavam com prisão
decretada. Os bens e contas bancárias dos três, bloqueados.
Gusttavo Lima estava na Grécia gravando músicas novas e sucessos
antigos. Ele tinha escolhido um iate luxuoso para comemorar com amigos
seu aniversário de 35 anos. Rocha Neto e Aissla estavam lá.
Segundo a polícia, na ida para a Grécia, no começo de setembro, o
casal Rocha Neto, dono da Vai de Bet — e com quem Gusttavo Lima disse
não ter intimidade — pegou carona no avião do cantor. Já no retorno ao
Brasil, Gusttavo chegou sem eles. A suspeita é de que o casal — então
foragido — teria desembarcado antes, na Espanha.
Foi a suposta ajuda a foragidos que motivou a decretação da prisão
de Gusttavo Lima, em 16 de setembro. A decisão caiu, em segunda
instância, menos de 24 horas depois.
O cantor postou um vídeo contestando o envolvimento das empresas dele em transações ilegais.
“Gente, eu não tenho nada a ver com isso, me tira fora disso”, diz
ele na gravação. “Meu avião foi vendido, ano passado, e eu não tenho
nada a ver com isso, tá bom?”
Por meio dos advogados, Gusttavo Lima respondeu às perguntas feitas
pela polícia. Negou conhecer Darwin Filho — aquele que, segundo a
polícia, pertence a uma família de bicheiros do Recife.
O cantor também afirmou que os registros de compra e venda das
aeronaves — nas negociações com Darwin e com Rocha Neto — foram feitos
sem ocultação ou dissimulação e os pagamentos, em contas bancárias
normais.
O cantor ainda negou ter relação de intimidade com Rocha Neto e Aissla.
Polícia suspeita que Gusttavo Lima seja dono oculto da Vai de Bet
Em julho desse ano, Gusttavo Lima virou, segundo o inquérito, sócio
da marca Vai de Bet, com participação de 25%. Mas os investigadores
suspeitam que o cantor já era uma “espécie de dono oculto” desde antes.
No final de 2023, a Vai de Bet fechou um patrocínio milionário com o
Corinthians que acabou virando alvo de outra investigação em São Paulo.
Em depoimento à polícia, um conselheiro do clube contou que o
presidente do Corinthians falou por telefone com Gusttavo Lima e que o
presidente afirmou — já naquela época — que o cantor era um dos donos da
Vai de Bet.
“Em um dos depoimentos das testemunhas ouvidas no caso da subtração
de valores do Corinthians, é mencionado que, no momento da assinatura do
contrato, foi informada essa testemunha por parte do presidente do
Corinthians, que a Vai de Bet teria como um dos sócios o Gustavo Lima”,
afirma Juliano Carvalho, promotor de Justiça do Grupo Especial de
Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo.
O Corinthians disse que o caso está na Justiça e que o clube não trata mais de questões ligadas a essa empresa.
O que dizem as defesas
Gusttavo Lima
A defesa de Gusttavo Lima enviou uma nota ao Fantástico informando
que o dinheiro no cofre da Balada Eventos era para pagamento de
fornecedores. Quanto às notas sequenciais, diz que os valores foram
declarados e os impostos pagos.
A defesa do cantor afirma ainda que o contrato com a PIX365 tinha
cláusula anticorrupção e foi suspenso. E sobre a venda das aeronaves,
diz que os contratos foram feitos em nome das empresas com os seus
representantes legais, o que afasta a possibilidade de lavagem de
dinheiro.
A nota diz também que o cantor não é sócio da Vai de Bet. O contrato
encontrado pela polícia indica que ele tem 25% de eventual venda da
marca.
Em relação ao investigado Rocha Neto, a defesa de Gusttavo Lima disse
que ele esteve junto do empresário em alguns eventos em decorrência da
relação comercial. Gusttavo disse que o casal deixou o navio no dia da
operação e que voltou ao Brasil sem eles.
Sobre o indiciamento do cantor, os advogados disseram que o envio de
dinheiro para empresas de Gusttavo Lima, mediante contratos assinados,
não constitui nenhum ilícito.
A defesa mandou ainda uma nota complementar informando que a análise
dos policiais apresenta falhas ao não considerar a data digital do
distrato da compra de uma das aeronaves.
Rocha Neto
A defesa de Rocha Neto diz que as notas sequenciais da PIX365
emitidas à empresa de Gusttavo Lima são pela prestação de serviço do
cantor à Vai de Bet.
Sobre a negociação de aeronaves, a defesa alega que ele usou o helicóptero como parte de pagamento do jatinho da Balada Eventos.
Quanto à movimentação financeira, Rocha Neto afirma que tem negócios
diversificados e que sua família empreendeu e prosperou no ramo da
construção civil, há décadas. Disse ainda que ele e a esposa hoje
lideram a marca Vai de Bet.
Já sobre a participação de Gusttavo Lima na Vai de Bet, Rocha Neto
afirma que o cantor tem direto a 25% da marca, mas que nunca foi sócio e
jamais participou da administração.
Rocha Neto afirma também que o primeiro contato com Gusttavo Lima foi
para tê-lo como embaixador da Vai de Bet e que — pela relevância da
parceria — frequentaram eventos a convite dele. Um deles foi o
aniversário do cantor, na Grécia, quando o casal teve a prisão decretada
e não se apresentou.
Darwin Filho
Darwin Fiilho nega ter relação com o jogo do bicho. E quanto ao
cancelamento da compra do avião do cantor sertanejo, ele disse que a
transação foi lícita e regular. Segundo ele, a própria quebra de sigilo
bancário confirma as informações prestadas.
As bets
A pressão para a regulamentação das bets, prevista para janeiro de
2025, aumentou. Nesta semana, o Banco Central divulgou um dado
preocupante: o mercado que domina hoje o grosso das apostas são das bets
irregulares. Elas nem se apresentam como bets — em vez disso, estão
cadastradas como qualquer outra cois, por exemplo, um salão de beleza.
Ainda de acordo com o levantamento, pessoas que recebem o Bolsa
Família gastaram somente em agosto cerca de R$ 3 bilhões em
transferências PIX para casas de apostas.
Nesta semana, o governo Lula deve apresentar um plano para impedir o
uso do Bolsa Família em bets. Elas são autorizadas no Brasil desde 2018.
A partir de 1º de outubro, as bets que não solicitaram autorização no Ministério da Fazenda terão a operação suspensa no país.
“Nós iremos divulgar no dia 1º uma lista de todos os sites de apostas
que estão no período de adequação. E apenas esses sites estarão
legalizados neste momento”, diz Regis Dudena, secretário de Prêmios e
Apostas do Ministério da Fazenda.
“A regulamentação separa quem são empresas de apostas, de pessoas que
estão usando a aposta para outra coisa”, continua ele. “É papel do
Estado regular esse primeiro grupo das empresas para que elas prestem o
serviço cumprindo regras e é papel do Estado também, na outra ponta,
coibir a atividade criminosa.”
A agenda de shows do cantor sertanejo está mantida. A primeira
apresentação depois da semana turbulenta foi na última sexta (27), em
Marabá, no Pará.
“Acredita nos teus amigos, nos seus parceiros. Valorize a tua
família. E honra acima de tudo. Seja honesto. Faça o errado. É, de vez
em quando. Faça o certo. O errado todo mundo já faz”, disse o sertanejo
durante o show. “Seja certo, seja justo, seja honesto. Pra que quando
tudo parecer desmoronar, só tua honestidade te salvará.”
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